Pep-SICO: Ana Pina e a ferramenta que “permite planear a vida” dos doentes neurodegenerativos

02/11/2026
HealthNews (HN) – Pode explicar-nos, de forma simples, como é que a ferramenta Pep-SICO que está a desenvolver funciona para detetar os agregados da proteína tau? Ana Pina (AP) – A ferramenta Pep-SICO é um novo teste de diagnóstico baseado em compartimentos de péptidos que encapsulam sensores químicos. Enquanto os compartimentos detetam e enriquecem no seu […]

HealthNews (HN) – Pode explicar-nos, de forma simples, como é que a ferramenta Pep-SICO que está a desenvolver funciona para detetar os agregados da proteína tau?

Ana Pina (AP) – A ferramenta Pep-SICO é um novo teste de diagnóstico baseado em compartimentos de péptidos que encapsulam sensores químicos. Enquanto os compartimentos detetam e enriquecem no seu interior os agregados de tau, os sensores, no interior dos compartimentos, vão detetar o formato específico dos agregados de tau, pois dependendo da doença, estes podem ter diferentes formatos específicos (3R ou 4R).

HN – Quais são as principais vantagens desta nova ferramenta em comparação com os métodos atuais de diagnóstico da doença de Alzheimer?

AP – O objetivo principal do nosso estudo é, de forma precoce, identificar e fazer o diagnóstico diferencial de doenças causadas por deposição de agregados de proteína tau anómala, as taupatias. A doença de Alzheimer é também uma tauopatia, mas o nosso foco é nas outras doenças não Alzheimer.

HN – Em que fase de desenvolvimento se encontra o projeto Pep-SICO e quando prevê que possa estar disponível para utilização clínica?

AP – Neste momento temos uma prova de conceito que é possível detetar e enriquecer agregados de tau dentro dos nossos compartimentos. Os próximos passos focam-se no diagnóstico diferencial, mais concretamente, no desenvolvimento dos compartimentos com sensores químicos no seu interior que permitem diferenciar entre os tipos de agregados, ou seja, entre os tipos de formatos de agregados de tau (3R/4R). Estamos otimistas que daqui a 5 anos podemos vir a ter disponível uma nova ferramenta de diagnóstico para utilização clínica.

HN – Como é que esta investigação poderá contribuir para melhorar o diagnóstico precoce de outras doenças neurodegenerativas além do Alzheimer?

AP – Ao detetar no líquido cefalo-raquidiano formas de tau hiperfosforilada, conseguiremos descobrir precocemente a causa dos sintomas que estão a afligir o paciente. Falamos sobretudo de doenças que clinicamente se podem confundir com a doença de Alzheimer e de Parkinson.

HN – Que impacto espera que este projeto tenha na vida dos doentes e das suas famílias?

AP – Ao diagnosticarmos que uma pessoa tem uma doença específica, conseguimos transmitir informação prognóstica (de maneira que o indivíduo e entes próximos possam planear a sua vida) e administrar tratamentos específicos quando existirem.

HN – Quais são os maiores desafios que antecipa na implementação desta tecnologia na prática clínica?

AP – O nosso primeiro objetivo é detetar as formas anómalas de tau no líquido cefalorraquidiano, um líquido que reveste o cérebro e a medula. Tendo em conta que o mesmo é obtido através de punção lombar, um método invasivo, com algumas contra-indicações e efeitos adversos, é expectável que não possamos usar esta técnica em todos os indivíduos. No entanto, pretendemos ultrapassar esta dificuldade num segundo momento, em que testaremos a ferramenta Pep-SICO no plasma.

HN – Como é que a colaboração com a ULSLO e a Universitat de Barcelona enriquece este projeto de investigação?

AP – A colaboração com a ULSLO, mais concretamente com a Dr. Luísa Alves, médica neurologista dedicada a doenças da Cognição, enriquece o processo na medida em que a comunicação com os clínicos permitiu desde o início perceber o potencial de aplicação clínica da ferramenta Pep-SICO. Por outro lado, é fundamental a ligação à consulta externa de Neurologia, onde poderá ser proposto aos utentes com doença neurológica a participação no estudo clínico. A colaboração com Universitat de Barcelona visa fundamentalmente no desenvolvimento de estratégias de formulação dos compartimentos e melhorar a sua estabilidade, permitindo a sua utilização a longo-prazo.

HN – Tendo em conta o financiamento significativo que recebeu, quais são as suas expectativas para o futuro desta linha de investigação após os próximos três anos?

AP – Desejamos poder contribuir para o desenho de ensaios clínicos com agentes farmacológicos que terão como alvo as proteínas tau hiperfosforiladas 3R e 4R.

Entrevista MMM

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