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O Registo Nacional de Cardiologia de Intervenção, que começou como uma base voluntária e incipiente em 2002, passou a ferramenta estrutural para medir o desempenho dos centros com via verde estruturada. Os 4327 procedimentos do ano passado representam mais do triplo do que se fazia há vinte anos, quando as angioplastias primárias não chegavam a 1200. O crescimento, ainda assim, não acomoda a meta europeia de seiscentos procedimentos por milhão de habitantes; Portugal ronda metade desse valor, com assimetrias regionais que os responsáveis não escondem. Na ULS de Coimbra, onde exerce, Joana Delgado Silva, agora presidente da Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC) para o biénio 2025‑2027, tem repetido que o problema não está apenas na oferta. A cardiologista de intervenção, que até há meses era vogal da mesa da assembleia‑geral, coordenou a campanha “Cada Segundo Conta” e insiste: o tempo é tecido. “O enfarte é uma emergência em que cada minuto de atraso traduz‑se em perda de massa muscular”, afirmou em comunicado divulgado após a tomada de posse. Ainda antes de assumir a presidência, Delgado Silva sublinhava que o prognóstico depende da rapidez com que se restabelece o fluxo na artéria ocluída. Dados do Algarve, em 2008, já mostravam que a mortalidade aos trinta dias para enfartes anteriores — os mais extensos — podia ficar abaixo de 3% quando o circuito funcionava bem. Foram anos a consolidar o desígnio das vinte e quatro horas, desde que Faro arrancou com a primeira experiência e os registos mal permitiam comparações.
João Brum Silveira, cardiologista no Hospital da Luz e coordenador nacional das iniciativas Stent Save a Life e Cada Segundo Conta, tem lidado com uma contradição elementar. A descrição clássica — “dor no peito que irradia para o braço esquerdo, costas ou pescoço, frequentemente acompanhada de suores, náuseas, vómitos e dificuldade em respirar” — continua por fixar em mais de dois terços da população. Silveira, peremptório, avisa: “Perante estes sinais não se deve pegar no carro para ir para o hospital; deve‑se ligar o 112 e aguardar a equipa de emergência.” A técnica que revolucionou o tratamento, a angioplastia primária pela via radial, desobstrui a artéria em mais de 90% dos casos e evita a cirurgia aberta. O que ainda não se conseguiu encurtar, de forma homogénea, é o tempo que medeia entre o início da dor e o primeiro contacto com os serviços de saúde. A organização da Via Verde Coronária permite hoje que, em vários distritos, o intervalo entre o primeiro contacto médico e a entrada no laboratório de hemodinâmica seja inferior a noventa minutos. Mas o elo pré‑hospitalar — a decisão da própria pessoa — é frágil.
O enfarte agudo resulta, quase sempre, da rotura de uma placa de ateroma que desencadeia um trombo e interrompe a irrigação. A área do músculo cardíaco em sofrimento começa a sofrer lesão irreversível poucas horas depois. É essa a razão da obsessão com os tempos porta‑balão ou ECG‑balão. A campanha “Cada Segundo Conta”, lançada em 2019 e com o alto patrocínio do Presidente da República, não se limita a elencar factores de risco — tabagismo, colesterol, hipertensão, diabetes, stress — nem a recomendar exercício e dieta. A aposta, quase obsessiva, é a memorização do alarme. “Se quer o Futuro, Cuide do Presente” foi o lema usado na vertente Coração de Mãe, em Maio passado. A iniciativa dirigiu‑se às mulheres, que enfartam em média mais tarde, mas com frequência apresentam sintomas atípicos e estão sub‑representadas nos ensaios clínicos. Dos 4327 doentes tratados em 2025, cerca de um quarto eram mulheres, com idade média de 68 anos e elevada prevalência de excesso de peso. Os números são mais baixos do que o desejável, admitem os especialistas.
Joana Delgado Silva tem defendido, desde que assumiu a presidência da APIC, que a associação deve manter “um diálogo regular com o Ministério da Saúde”. Não se trata apenas de garantir que a cardiologia de intervenção está integrada nas estratégias nacionais de forma equitativa, mas também de assegurar acesso a novas tecnologias e combater desigualdades. O objectivo, afirma, não é tratar o enfarte agudo; é evitar que ele aconteça. As informações sobre a doença e os conselhos de prevenção estão disponíveis em www.cadasegundoconta.pt e www.apic.pt. Acessos que, na opinião dos responsáveis, ainda deviam ser mais procurados.
PR/HN/MM



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