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O Governo oficializou esta tarde as equipas de gestão para duas das maiores unidades locais de saúde do país, num processo que envolveu a saída de Rosa Valente de Matos da ULS São José — cargo que ocupava desde 2020, acumulando seis anos de administração — e a transferência de Sandra Cavaca (na imagem) dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde para a conturbada ULS Amadora-Sintra. Em comunicado, o executivo adiantou os nomes completos dos designados, cumprindo o formalismo habitual, mas não apresentou justificações públicas para as escolhas, nem detalhou critérios.
A ULS São José, que integra sete hospitais e dezenas de centros de saúde na região de Lisboa, passa a ser presidida por José Miguel Dias Paiva e Costa. Até aqui, Paiva liderava a ULS de Entre Douro e Vouga, uma estrutura de menor dimensão, sita em Santa Maria da Feira. Além da presidência, foram nomeados cinco vogais: Luís Manuel Viegas de Campos Pinheiro, Miguel Marques Ferreira, Eduardo de Brito Alçada Castela, Teresa Cristina Vaz Fernandes e Susana Maria Sardinha Vieira Ramos. A anterior presidente, Rosa Valente de Matos, militante socialista e membro do Secretariado Nacional do PS, soube ainda em dezembro que não seria reconduzida. Numa mensagem interna aos colaboradores, à época, falou em “dever cumprido” e em “orgulho imenso” pelo percurso. Nunca lhe foi apontada publicamente qualquer razão para a substituição.
No Amadora-Sintra, a escolha recaiu sobre Sandra Paula Nunes Cavaca Saraiva de Almeida, licenciada em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE, com pós-graduação em Gestão dos Serviços de Saúde. O percurso de Cavaca é predominantemente administrativo: foi secretária-geral do Ministério da Saúde entre 2012 e 2020, depois vogal e, desde 2023, presidente dos SPMS. Não tem, contudo, experiência conhecida em gestão hospitalar operacional ou em contextos clínicos. Substitui Carlos Sá, administrador hospitalar que pediu a demissão em novembro de 2025, oito meses após tomar posse. Sá viu-se envolvido na polémica da morte de Umo Cani, grávida de 38 semanas, que deu entrada no Hospital Fernando da Fonseca e faleceu após paragem cardiorrespiratória. O então presidente prestara informação que a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, reproduziu no Parlamento — mais tarde retificada. Carlos Sá alegou dever ético e responsabilidade pessoal.
O novo conselho de administração da ULS Amadora-Sintra integra ainda cinco vogais: João Tiago Fernandes Serra, Ana Cristina Marques Miranda, Nuno Miguel Ramos da Costa, Paulo Alexandre Wolckart Ferreira Freitas e Graça de Fátima Gonçalves do Nascimento. Destes, João Tiago Serra havia renunciado, em janeiro deste ano, às funções de adjunto da direção clínica para a área hospitalar da mesma ULS, numa vaga de saídas que incluiu o diretor clínico Mário Rui Machado Cruz. O contexto institucional foi então descrito pelo próprio conselho de administração cessante como marcado por “natural desconforto” e “acrescidos constrangimentos na gestão”. Serra transita agora para o órgão máximo da unidade.
A unidade que Cavaca agora vai dirigir enfrenta uma pressão assistencial crónica, com urgências frequentemente saturadas e, no final de 2025, mais de 191 mil utentes sem médico de família atribuído. É um dos territórios da grande Lisboa com maiores carências na cobertura de cuidados primários, circunstância que a própria ministra já classificou como “frágil”.
Paralelamente, o Conselho de Ministros aprovou a nova administração dos SPMS, a entidade que tutela os sistemas de informação, compras centralizadas e a linha SNS24. Para o mandato 2026-2028, regressa à presidência Luís Filipe Loureiro Goes Pinheiro, que já liderara a instituição entre 2020 e 2023. Licenciado em Direito, Goes Pinheiro foi secretário de Estado no XXI Governo Constitucional e, depois da saída dos SPMS, assumiu a presidência da Agência para a Integração, Migrações e Asilo e, mais tarde, a estrutura de missão para a recuperação de processos pendentes naquele organismo — a EMAIMA, cujo mandato terminou no final de 2025. A sua nomeação para os SPMS, segundo apurou a imprensa, terá partido de dentro do próprio Governo e não diretamente da tutela da Saúde. Como vogais, foram designados Joaquim Carlos de Oliveira Pinto Gomes Rodrigues e Isabel Margarida Afonso da Silva Baptista.
Em declarações no início de janeiro, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, alertara para o que classificou como “amiguismo” e “politiquismo” na escolha dos gestores das ULS, defendendo que as nomeações deveriam obedecer a critérios “técnicos, de competência e de conhecimento do terreno”. Falava então, sem os nomear, de casos como o de Miguel Paiva e o de Rosa Valente de Matos. O bastonário ressalvou não se pronunciar sobre situações concretas, mas deixou claro que a Ordem vê “com muita desconfiança” a substituição de administrações com “bom desempenho” sem justificação expressa. A Direção Executiva do SNS, à data, não comentou as nomeações que ainda não haviam sido formalizadas. Hoje, consumaram-se.
NR/HN/Lusa



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