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A passagem do Gezani não se limitou a números. Em Toamasina, cidade de 400 mil habitantes, moradores descreveram à AFP a fúria de um sistema que o Centro Meteorológico Regional Especializado de Reunião não hesitou em comparar ao ciclone Geralda de 1994, um dos mais mortíferos de que há registo na bacia. É monstruoso. Tudo está destruído, os telhados foram arrancados, o chão está inundado, as paredes das casas sólidas caíram, relatou por telefone um residente dos bairros altos, onde as construções são geralmente mais resistentes. A comunicação durou pouco; a rede elétrica ruiu ainda durante a tarde, cinco horas antes do embate direto do olho do ciclone sobre o porto.
O Gabinete Nacional de Gestão de Riscos e Desastres contabilizou, até ao momento, 18.600 habitações danificadas ou totalmente destruídas, 493 salas de aula inutilizadas e 20 unidades sanitárias afetadas. Os arrozais, base da subsistência de milhões de malgaxes, sofreram perdas extensas. As águas das cheias contaminaram reservatórios de abastecimento, o que coloca agora às autoridades um problema sanitário de difícil resolução num país onde o acesso à água potável é já de si precário.
O Presidente Michael Randrianirina, que ascendeu ao poder em outubro na sequência de um golpe militar, deslocou‑se a Toamasina. Vídeos divulgados pela página oficial da Presidência no Facebook mostram o chefe de Estado a percorrer bairros alagados, a falar com moradores que tentavam salvar alguns pertences do lodo e dos destroços. Não se avançou, porém, qualquer anúncio concreto de medidas extraordinárias para além da declaração de tolerância de ponto obrigatória nesta quarta‑feira nas regiões de Analanjirofo, Atsinanana, Alaotra Mangoro e Analamanga, onde vigorou o alerta vermelho.
Madagáscar não teve tempo para refazer‑se. O Gezani tocou terra apenas onze dias depois de o ciclone Fytia ter ceifado 12 vidas e desalojado 31 mil pessoas no noroeste do território. A sucessão de tempestades intensas, num curto intervalo, saturou os solos e esgotou a resiliência de comunidades inteiras. Num país de 31 milhões de habitantes com elevados índices de pobreza, cada novo fenómeno meteorológico extremo empurra famílias para uma margem ainda mais frágil.
Enquanto Madagáscar contabiliza perdas, a atenção das autoridades moçambicanas está fixa no Canal. O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) prevê que o Gezani, após reter energia sobre as águas quentes, volte a adquirir categoria de ciclone tropical e bata entre as províncias de Sofala, Inhambane e Gaza na sexta‑feira. Inocêncio Impissa, porta‑voz do Conselho de Ministros, foi claro na conferência de imprensa realizada em Maputo: Este sistema poderá fazer aproximação à costa moçambicana como ciclone tropical, afetando os distritos costeiros. Representa um recuo nos esforços das autoridades. O recuo a que Impissa se refere é o receio de que as 76 mil pessoas ainda acolhidas nos 77 centros de acomodação, vítimas das cheias de janeiro, abandonem os abrigos preventivamente ou, pior, que novos desalojados venham juntar‑se aos que já perderam tudo.
A Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos alertou para o risco elevado de cheias nas bacias de Inhambane, Mutamba, Save, Limpopo e, com menor grau, Incomati e Umbelúzi. O Conselho Técnico de Gestão e Redução do Risco de Desastres ativou as ações antecipadas para ciclones, um protocolo que inclui desde o reforço das coberturas das casas com materiais resistentes até a preparação de kits básicos de sobrevivência alimentos, água, medicamentos, documentos. A Autoridade Reguladora de Transporte Marítimo (ITRANSMAR) suspendeu a navegação nas três províncias sob aviso a partir da meia‑noite de hoje.
Nas redes sociais, o anúncio das medidas gerou uma onda de reações onde a fadiga e o descrédito se misturam. Já não estou a entender nada, umas vezes é dia 12, outras dia 11, assim já é dia 13. Não nos chateiem, já estamos cansados dessas tempestades, escreveu uma residente de uma zona costeira. Outro comentário, mais ácido, ironizava com um hipotético apelo do Governo para que a população permaneça em casa entre os dias 13 e 15, apenas para poder sair à rua no dia 16. O cansaço é legítimo. Só na presente época chuvosa, iniciada em outubro, Moçambique contabiliza 202 mortos e mais de 852 mil pessoas afetadas por cheias e tempestades. Os ciclones Chido, Dikeledi e Jude, entre 2024 e 2025, deixaram 313 óbitos.
O país, classificado recorrentemente entre os mais severamente golpeados pelas alterações climáticas, vê‑se forçado a pedir ajuda externa com intervalos cada vez mais curtos. A União Europeia, Estados Unidos, Portugal, Angola, China e outros parceiros já canalizaram assistência de emergência. O Governo estima serem necessários 644 milhões de dólares para reparar apenas os danos das últimas três semanas, que incluíram a rutura de três quilómetros da Estrada Nacional Número 1, a artéria que costura o país de norte a sul e cujo corte agravou o escoamento de bens e o movimento de pessoas.
O Gezani, neste momento, é uma tempestade tropical que se desloca sobre o Canal. Até sexta‑feira, ganhará ou não força. As previsões apontam que sim. Moçambique aguarda, com os centros de emergência mobilizados e a memória ainda fresca da água que invade casas, derruba pontes e arrasta culturas inteiras.
NR/HN/Lusa



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