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A reunião arranca com uma certeza, lançada por Ricardo Veloso na sessão das 09h10: a DII é coisa séria e não se confina ao intestino. É uma doença sistémica, e o programa desenhado pela comissão organizadora – onde se contam Ana Patricia Andrade, Cátia Leitão, Eva Barbosa, Frederico Ferreira, Luís Lopes, Paula Lago, Ricardo Veloso e Tiago Pereira Guedes – reflete essa preocupação em estender a conversa a outras especialidades. Ao longo do dia, o mosaico de manifestações extra-intestinais vai sendo desfiado por clínicos de várias áreas, numa tentativa de quebrar aquela tendência natural de cada um olhar para o seu órgão de eleição.
O período da manhã reserva espaço para o reumático e o oftalmológico. Tiago Pereira Guedes aborda as espondiloartrites associadas à DII, enquanto Filipe Brandão lança a questão prática dos critérios para o co-seguimento gastro-reumatológico. É um daqueles temas de fronteira que, na prática do dia-a-dia, geram hesitação – de quem é o doente quando as articulações e o intestino inflamam em simultâneo? Depois, a oftalmologia entra em cena com Ana Patrícia Andrade e Maria João Furtado, esta última a lembrar que há urgências na visão que não perdoam e que por vezes são a primeira pista de uma doença intestinal até então silenciosa.
Há, contudo, um fio condutor que atravessa os blocos de casos clínicos: a complexidade. São dezassete no total, muitos deles a descrever situações limite. Sandra Ribeiro Correia apresenta uma colite ulcerosa agudizada grave diagnosticada na gravidez – um verdadeiro teste à capacidade de decisão multidisciplinar, onde o bem-estar fetal e materno têm de ser pesados em conjunto. Rita Ferreira expõe uma perfuração ileal que coloca em diagnósticos diferenciais a Crohn e a doença de Behçet, e Jorge Bezerra repete-se na lista com um caso de derrame pericárdico como manifestação de colite ulcerosa. Há também espaço para as tais situações em que a cirurgia não é ponto final: Henrique Fernandes-Mendes discute uma pouchite refratária resolvida com vedolizumab, e Pedro Vilela Teixeira aborda a refratariedade ao biológico que acaba na mesa do bloco operatório.
O período da tarde muda de registo. Depois do almoço, Paula Lago apresenta formalmente a Unidade de Doença Intestinal Inflamatória do hospital, seguindo-se um bloco dedicado à cirurgia e enfermagem. Eva Barbosa acumula funções: é moderadora e palestrante, falando dos avanços na cirurgia da DII e, depois, dos desafios concretos quando os doentes não aderem à terapêutica. Clarisse Maia, enfermeira da unidade, discute o impacto dos cuidados de enfermagem na qualidade de vida – um tema tantas vezes remetido para segundo plano mas que aqui ganha destaque.
Um dos momentos mais aguardados é o módulo “A voz dos doentes”, moderado por Ricardo Veloso e Marina Caldas, com a participação de Ana Sampaio, presidente da Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestinal (APDII). É a primeira vez que a associação marca presença formal numa reunião científica desta unidade, num esforço assumido de aproximação entre o conhecimento técnico e a vivência real da patologia. Mais tarde, Frederico Ferreira pega numa pergunta que muitos doentes fazem mas poucos verbalizam em consulta: porque demora tanto o diagnóstico? E Ricardo Veloso projecta-se no futuro, especulando sobre as perspetivas terapêuticas que aí vêm.
O prémio para o melhor caso clínico não é meramente simbólico. O vencedor terá a inscrição garantida no ESGE Days, o congresso anual da Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal, que este ano se realiza de 14 a 16 de maio em Milão, num dos maiores centros de congressos da cidade, o Allianz MiCo . A organização do evento europeu já divulgou que recebeu mais de 2380 resumos regulares, um aumento de 26% face ao ano anterior, e o programa incluirá pela primeira vez um curso sobre sedação segura e grupos de interesse especial em disseção endoscópica da submucosa, pancreato-biliar e endoscopia bariátrica . A distinção atribuída em fevereiro na CUF Porto permitirá ao autor do caso vencedor circular por este ambiente científico de primeira linha, numa altura em que a endoscopia digestiva europeia se prepara para discutir o rastreio do cancro colorretal assistido por inteligência artificial e as novas fronteiras da intervenção terapêutica . A entrega do galardão está marcada para as 17h15, por Paula Lago, antecedendo em quinze minutos a sessão de encerramento.



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