Por Susana Regadas, Professora da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico Jean Piaget de Vila Nova de Gaia

Há gente cansada…Quando a escassez se normaliza, a mediocridade instala-se!

02/12/2026

Há um ponto de ruptura nos sistemas de saúde que raramente é assumido: não é quando faltam recursos, mas quando a sua ausência deixa de provocar indignação. Hannah Arendt alertava que o verdadeiro perigo não reside no mal excepcional, mas na sua banalização. Na saúde, e de forma reiterada e particularmente evidente na Enfermagem, aproximamo-nos desse território. A escassez deixou de ser percepcionada como falha estrutural e passou a integrar o funcionamento “normal” dos serviços.

A carência crónica de profissionais, de condições materiais/estruturais e de organização deixou de ser encarada como anomalia. O que outrora seria considerado inaceitável tornou-se tolerável; o que era excepção converteu-se em regra; o que é estruturalmente insuficiente passou a ser descrito como “o possível”. Esta transformação é subtil, mas profundamente cáustica e corrosiva, porque altera o próprio referencial do que entendemos por qualidade e segurança.

Michel Foucault lembrava que os sistemas de poder mais eficazes não são os que reprimem, mas os que moldam comportamentos e expectativas. Quando um Enfermeiro assume rácios manifestamente inseguros sem questionamento institucional, quando o cuidado é comprimido em meros minutos e o risco é absorvido como rotina, não estamos perante resiliência profissional. Estamos perante adaptação forçada a um modelo disfuncional que redefine silenciosamente os limites do aceitável.

Neste contexto, a mediocridade não surge por ausência de competência. Surge pela erosão das condições que permitem a excelência. A prática clínica deixa de ser orientada e robustecida pela evidência científica produzida e mais update, e passa a ser condicionada pelo que é logisticamente viável. A exigência cede lugar à sobrevivência operacional. Zygmunt Bauman descreveu uma modernidade líquida em que até os padrões se tornam flexíveis; na saúde, essa flexibilidade traduz-se na normalização de padrões mínimos e decrépitos, como se fossem manifestamente suficientes.

A normalização da escassez cria ainda uma ilusão de eficiência. Os serviços continuam a funcionar, os turnos são assegurados, os indicadores são preenchidos. À superfície, o sistema aparenta uma suposta continuidade. Contudo, este funcionamento é sustentado à custa do desgaste humano, do silêncio profissional e da transferência progressiva de responsabilidade do sistema para o indivíduo. Quando ocorre uma falha, um “erro”, raramente se questiona a estrutura que a produziu; questiona-se o profissional que “não conseguiu dar resposta” e é a este que é imputada a responsabilidade pública.

Pierre Bourdieu descreveu a violência simbólica como aquela que se exerce com a cumplicidade involuntária de quem a sofre. Ao naturalizar a escassez, o sistema redefine o que é aceitável sem o declarar explicitamente. Os próprios profissionais interiorizam limites que nunca deveriam aceitar. O improviso transforma-se em método, a adaptação permanente converte-se em virtude e o risco passa a ser entendido como inevitável.

Na Enfermagem, este fenómeno assume uma gravidade capital e singular. Profissionais altamente qualificados veem o seu exercício reduzido a uma lógica de gestão de danos. O dito damage control instala-se de forma rotineira, em que a  prioridade deixa de ser a excelência do cuidado e passa a ser a prevenção do colapso imediato. O foco desloca-se da promoção de ganhos em saúde para a contenção de riscos mínimos. Não se trata de falhas individuais nem de défice de compromisso, envolvimento e ou disponibilidade; trata-se de um modelo que sobrevive explorando o cerne do cuidado e a responsabilidade moral dos profissionais.

A Enfermagem, centrada na protecção da dignidade humana e na defesa da qualidade do cuidado, torna-se paradoxalmente o mecanismo que sustenta o sistema. É porque os profissionais não desistem, porque compensam falhas estruturais com esforço adicional e muitas vezes sobre-humano, que o desmoronamento não é imediato. Mas esta compensação tem limites. A exaustão, a desmotivação e a saída de profissionais do sistema são sintomas de uma degradação que já não pode ser ignorada. Não falamos de uma morte anunciada…fase que possivelmente prescreveu…trata-se antes, de uma possível certidão de óbito emitida, que alguns teimam em dissimular.

Aceitar esta realidade como inevitável é abdicar da ambição de um sistema de saúde digno desse nome. É gerir a penúria como estratégia, em vez de a enfrentar como falência estrutural. É confundir resiliência com resignação. Quando a escassez é tratada como dado adquirido, perde-se a capacidade de reivindicar melhores condições, porque o horizonte do possível já foi minorado.

George Orwell escreveu que “num tempo de engano universal, dizer a verdade é um ato revolucionário”. A verdade incómoda é que um sistema que se habitua à escassez não está a resistir; está a degradar-se. Pode continuar a funcionar tecnicamente, mas fá-lo com padrões progressivamente diminuídos e com custos humanos invisibilizados. A mediocridade instala-se não por escolha consciente, mas por ajustamento sucessivo a circunstâncias adversas.

O maior risco não é apenas a diminuição da qualidade assistencial imediata. É a redefinição cultural do que consideramos aceitável. Quando gerações de profissionais entram no sistema já habituadas a trabalhar em condições insuficientes, a referência de excelência altera-se e recentra-se. O extraordinário passa a ser cumprir mínimos; o desejável torna-se utópico; a ambição clínica é substituída por pragmatismo defensivo.

A normalização da escassez não é neutra. Tem consequências éticas, organizacionais e um impacto societal significativo. Fragiliza a confiança dos profissionais, compromete a segurança dos doentes e corrói a credibilidade das instituições. Um sistema que aprende a funcionar mal, ensina indubitavelmente todos, a aceitar menos…inclusive aquilo que nunca deveria ser negociável: o cuidado seguro, digno e baseado na mais recente evidência científica produzida.

Reconhecer esta realidade não é um exercício de pessimismo, mas um passo…chamemos-lhe um derradeiro esforço necessário para interromper o ciclo da banalização. A escassez pode ser contingência; a sua normalização é escolha política e organizacional. Enquanto for tratada como inevitável, a mediocridade continuará a instalar-se de forma silenciosa.

E quando a mediocridade se torna padrão, o preço não é apenas profissional ou institucional. É pago, inevitavelmente, por quem mais deveria estar protegido: as pessoas…os doentes.

 

 

3 Comments

  1. jose arlindo araujo

    Uma visão muito atual e realista do tempo que vivenciamos, uma análise crua e dura de quem está no terreno e conhece o Sistema por dentro, colocando a nu o que todos sentimos e raramente verbalizamos, ou até quiçá uma realidade sobre a qual nem sequer ousamos refletir, pois dessa forma os dias tornam-se menos penosos….

  2. Ângela Guedes

    Parabéns, Susana Regadas, por dar voz a uma realidade que muitos de nós vivemos diariamente, mas que nem sempre é dita com esta clareza e coragem. Este texto reflete um cansaço coletivo, profundamente atual, e expõe com lucidez os riscos de normalizarmos a escassez como se fosse inevitável. Ler estas palavras é reconhecer o que sentimos no terreno e lembrar que cuidar com dignidade e qualidade não pode simplesmente ser reduzido ao “possível”.
    Obrigada por transformar a experiência, reflexão e compromisso num contributo tão necessário.

  3. Maria Ferreira

    Sim sem duvida uma realidade vivida e descrita por quem a conhece….vivências de anos e horas..mas pergunto me este querer nao será ” mais utopia” no contexto politico,social e mundial da atualidade!?
    Pergunta: o que podemos e devemos fazer!!!????
    Qual o caminho de “luta”
    São anos de palavras …..sem mudanças de acção

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Quando o saber atravessa fronteiras: Portugal no Luxemburgo pela excelência da enfermagem pediátrica

A professora Joana Mendes, professora adjunta da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Lisboa (ESEUL) e coordenadora do Projeto Cuidados Paliativos Peri, Neonatais e Pediátricos – Pali4NPCare, inscrito no CIDNUR,  participou no passado mês de fevereiro, e pelo terceiro ano consecutivo, na Faculdade de Ciência, Tecnologia e Medicina no Departamento de Saúde, Medicina e Ciências da Vida- Universidade do Luxemburgo, campus de Belval, a convite da professora Doutora Marie Friedel.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights