![]()
Nilza Ferrão, coordenadora de programa da ONG de origem norte-americana, explicou à Lusa que a organização não se limita a operar. O desígnio, referiu, passa também por qualificar quadros locais segundo padrões internacionais. “A nossa intenção é continuar a apoiar o Hospital Central de Nampula com mais campanhas cirúrgicas ainda este ano, garantindo não só as cirurgias, mas também a formação do pessoal médico”, afirmou.
António Alberto é cirurgião oral e maxilofacial naquela unidade hospitalar e conhece bem as limitações do sistema. Enquanto observador, já acompanhou de perto equipas estrangeiras em missões anteriores . Disse que a fenda labial e a fenda palatina são deformações congénitas que comprometem o lábio ou o céu-da-boca e que a correção é exclusivamente cirúrgica. Na atual campanha, prosseguiu, foram selecionados 25 pacientes, mas o programa cirúrgico prevê a intervenção direta em 15, com idades compreendidas entre zero e 17 anos. A recuperação, apontou, demora entre cinco a sete dias.
No bloco operatório, uma criança de ano e meio aguardava a vez. Maria Custódio, 20 anos, mãe da menina, falava com a voz presa na garganta. “Tenho sofrido muito preconceito na comunidade, por isso aguardo ansiosamente que a minha filha saia bem da cirurgia”, disse, já depois de a filha ter entrado para a sala. Não é a primeira vez que familiares de doentes relatam exclusão; há registo de casos em que avós enfrentaram pressão para abandonar recém-nascidos ou de pais que durante anos acreditaram não existir cura .
Olga Pedro é psicóloga clínica no hospital e acompanha o pré e pós-operatório dos pequenos doentes. Fez um apelo que disse ser dirigido sobretudo aos vizinhos, aos familiares afastados, à comunidade em geral. “Ninguém escolhe nascer ou ter um filho com esta condição”, declarou. O apoio familiar, sustentou, é determinante para a estabilidade emocional das crianças. Em Moçambique, o acesso a cuidados especializados é diminuto: o país conta com apenas um cirurgião por cada 100 mil habitantes, e estima-se que perto de 14 mil crianças até aos 14 anos vivam com malformações não tratadas .
A Operation Smile começou a intervir em Moçambique em 2014, num percurso que conheceu interrupções e recomeços . Atualmente, além de Nampula, estende a atividade a Cabo Delgado. Globalmente, a instituição fundada na Virgínia por William e Kathy Magee já realizou mais de 240 mil cirurgias em mais de 60 países. Em Nampula, a parceria com o hospital central permite que o cuidado não se esgote na missão pontual. Há consultas de nutrição, terapia da fala, apoio psicossocial. A coordenadora Nilza Ferrão garantiu que virão mais campanhas.
Dentro do bloco, o cirurgião António Alberto preparava-se para mais uma correção. A mãe, lá fora, esperava.
NR/HN/Lusa



0 Comments