Portugal ultrapassa 4.300 angioplastias primárias em 2025. APIC alerta: “Cada Segundo Conta”

12 de Fevereiro 2026

A Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular revela que foram realizadas mais de 4.300 angioplastias primárias em 2025, o número mais alto de sempre registado no país para tratamento do enfarte agudo do miocárdio. A propósito do Dia Nacional do Doente Coronário, a 14 de fevereiro, a APIC insiste na literacia para os sinais de alarme e no reflexo de ligar 112

A rede de hemodinâmica nacional realizou, no ano passado, mais de 4.300 intervenções coronárias percutâneas primárias, de acordo com o Registo Nacional de Cardiologia de Intervenção. O número representa uma subida consistente face às 3.817 contabilizadas em 2020 e reflecte o alargamento da malha de hospitais com capacidade para receber, a qualquer hora, doentes em enfarte . Ainda assim, a patologia atinge anualmente mais de dez mil portugueses e continua a figurar entre as causas de morte mais prevalentes.

Joana Delgado Silva, que assumiu a presidência da APIC no biénio 2025‑2027, lembra que o enfarte “é uma emergência em que o tempo é decisivo”. A cardiologista de intervenção na ULS de Coimbra, até aqui vogal da mesa da assembleia‑geral, tem reiterado que o prognóstico depende da rapidez com que se restabelece o fluxo na artéria ocluída . Em comunicado, a também coordenadora da campanha “Cada Segundo Conta” reforça que existem presentemente mais de vinte hospitais públicos com laboratório de hemodinâmica ao dispor da Via Verde Coronária, 365 dias por ano, 24 horas por dia — um desígnio que levou anos a consolidar, desde que a primeira experiência algarvia arrancou em 2002 e os registos nacionais ainda eram incipientes e voluntários  .

João Brum Silveira, cardiologista do Hospital da Luz e coordenador nacional das iniciativas Stent Save a Life e Cada Segundo Conta da APIC, insiste nos sintomas‑chave: “Dor no peito que irradia para o braço esquerdo, costas ou pescoço, frequentemente acompanhada de suores, náuseas, vómitos e dificuldade em respirar”. A descrição, aparentemente elementar, colide com o facto de mais de dois terços da população ainda não saber identificar um enfarte . Silveira é peremptório: “Perante estes sinais não se deve pegar no carro para ir para o hospital; deve‑se ligar o 112 e aguardar a equipa de emergência”. A técnica de eleição, a angioplastia primária, consegue, em mais de 90% dos casos, desobstruir a artéria através da colocação de stent pela via radial, evitando cirurgia aberta .

O Registo Nacional de Cardiologia de Intervenção, criado em 2002 pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia e depois mantido pela APIC, permitiu perceber que a mortalidade intra‑hospitalar caiu para valores muito baixos nos centros com via verde estruturada — a experiência de Faro, ainda em 2008, já mostrava uma taxa de 3% a 30 dias para enfartes anteriores, os mais extensos  . Nos últimos vinte anos, a angioplastia primária passou de pouco mais de mil procedimentos anuais para os actuais 4.300, o que coloca Portugal acima das 300 intervenções por milhão de habitantes, embora aquém da meta europeia das 600 .

O enfarte agudo do miocárdio resulta, na esmagadora maioria das situações, da rotura de uma placa de ateroma que desencadeia a formação de um trombo e a interrupção súbita da irrigação. A área do músculo cardíaco que fica em sofrimento começa a sofrer lesão irreversível ao fim de poucas horas — daí a obsessão dos cardiologistas de intervenção com a compressão dos chamados tempos porta‑balão ou ECG‑balão. A organização da Via Verde Coronária, que articula INEM, centros de saúde e hospitais de referência, permite hoje que em vários distritos o doente entre no laboratório de hemodinâmica em menos de 90 minutos após o primeiro contacto médico . Contudo, os responsáveis reconhecem que ainda existe assimetria regional e que a demora pré‑hospitalar — o tempo que a pessoa demora a decidir pedir ajuda — continua a ser o elo mais frágil.

A campanha “Cada Segundo Conta”, lançada em 2019 e com o alto patrocínio do Presidente da República, procura justamente encurtar esse lapso. Não se limita a elencar f actores de risco — tabagismo, colesterol, hipertensão, diabetes, stress — nem a recomendar exercício e dieta. A aposta é quase obsessiva na memorização do alarme: dor torácica que não passa, associada a mal‑estar geral. “Se quer o Futuro, Cuide do Presente” foi o lema utilizado na vertente Coração de Mãe, em Maio passado, dedicada às mulheres — que enfartam, em média, mais tarde, mas com frequência apresentam sintomas atípicos e são sub‑representadas nos ensaios clínicos . Dos 4.300 doentes tratados em 2025, cerca de um quarto eram mulheres, com idade média de 68 anos e elevada prevalência de excesso de peso.

Joana Delgado Silva tem ainda defendido que a APIC deve manter “um diálogo regular com o Ministério da Saúde” para que a cardiologia de intervenção seja integrada nas estratégias nacionais de forma equitativa, garantindo acesso a novas tecnologias e combatendo desigualdades . O objectivo, diz, não é apenas tratar o enfarte agudo, mas evitar que ele aconteça. As informações sobre a doença e os conselhos de prevenção podem ser consultados em www.cadasegundoconta.pt e www.apic.pt.

PR/HN/MM

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