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Foi nos corredores da Assembleia da República, entre um debate e outro, que Eurico Brilhante Dias (na imagem) travou o passo e enfrentou os microfones. A demissão de Maria Lúcia Amaral, anunciada na noite anterior, não lhe saía do discurso. „Vivemos momentos estranhos“, atirou. E repetiu a expressão, como quem a quer cunhar para a memória política deste fevereiro de 2026.
O país, lembrou, está a braços com a terceira depressão em duas semanas. Há mortos – quinze, já -, há desalojados, há um rio Mondego que ameaça romper diques e engolir povoações inteiras. Foi nesse cenário que a ministra que tutela a Proteção Civil entregou a pasta. „Incompreensível“, resumiu o líder da bancada socialista.
Brilhante Dias não se ficou pela crítica. Trouxe para o debate um fantasma que o PS ainda não largou – o da covid-19. „Era então o momento de mostrarmos que liderávamos este país“, disse, contrapondo a coesão do executivo de António Costa ao que considera ser agora uma fuga. Não mencionou o nome de Costa. Não precisou. A sombra do antigo primeiro-ministro pairou sobre São Bento durante toda a manhã.
Mais tarde, já em declarações à agência Lusa, o secretário-geral socialista, José Luís Carneiro, foi ao tutano da questão: „O primeiro e mais importante responsável da proteção civil no país é o primeiro-ministro.“ Carneiro, que outrora ocupou a mesma cadeira hoje vaga, deixou no ar a ideia de que Montenegro não pode „alienar-se“ das responsabilidades. A demissão de Maria Lúcia Amaral, sustentou, „é a prova de que o Governo falhou“.
Do lado do Governo, silêncio. Ou quase. Luís Montenegro assumiu interinamente a pasta, numa solução que a oposição classifica como provisória, mas que ninguém arrisca datar. O primeiro-ministro passou a manhã em Coimbra, debaixo de chuva persistente, a vistoriar o caudal do Mondego. Ao seu lado, a ministra do Ambiente e o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente. Perguntado sobre a sucessão no MAI, respondeu com o que tinha para responder: o foco, agora, são as pessoas.
Mas o mal-estar não se confina ao PS. André Ventura, do Chega, veio a público classificar o momento como „um falhanço evidente“ de Montenegro, que, diz, „vai perdendo o controlo do Governo“. A Iniciativa Liberal, pela voz de Mariana Leitão, contabilizou os dias: „Foram cinco dias que se perderam.“ E o Bloco de Esquerda, através de José Manuel Pureza, exigiu mudanças que não se esgotem „apenas em demissões“.
Houve quem não esperasse sequer por esta altura para pedir a cabeça da ministra. Gouveia e Melo, o antigo candidato presidencial, confessou ontem à noite, na SIC, que já considerava a situação „para lá de um limite razoável“. Num artigo de opinião publicado no Público no próprio dia da demissão, defendera exatamente isso: a ministra devia sair. Coincidência de calendário, garante.
Mais áspero foi o Sindicato Nacional da Polícia. Armando Ferreira, líder do SINAPOL, não poupou a ministra demissionária: disse que „vai ficar na História como uma das piores“ e acusou-a de „não fazer qualquer esforço para o diálogo social“. Palavras duras, proferidas na rádio Observador, que contrastam com a discrição com que Marcelo Rebelo de Sousa tratou o caso. O Presidente da República limitou-se a aceitar a vontade da ministra. “Ela entendeu que não tinha condições pessoais e políticas“, resumiu. Ponto final.
Entretanto, em Coimbra, a noite de terça-feira foi longa. Ana Abrunhosa, presidente da câmara, ordenou a retirada preventiva de cerca de três mil pessoas das zonas ribeirinhas. Conraria, Cabouco, Ceira, Torres do Mondego, São Martinho do Bispo – nomes de lugares que os noticiários repetem como uma litania. A decisão foi tomada depois de os técnicos da Agência Portuguesa do Ambiente terem alertado para o risco de colapso dos diques. O caudal no Açude-Ponte aproximava-se dos dois mil metros cúbicos por segundo. O limiar do tolerável.
Ao início da madrugada, 160 pessoas tinham sido acolhidas nos pavilhões e escolas preparados para o efeito. A maioria eram idosos provenientes de três lares de São Martinho do Bispo. Os restantes optaram por ficar em casa de familiares. O comandante sub-regional da Proteção Civil, Carlos Luís Tavares, repetiu o que já se tornou bordão nestes dias: „A prioridade é salvaguardar vidas.“ Mas a verdade é que, desde 28 de janeiro, quinze vidas já não puderam ser salvas.
O Expresso reconstituiu, nos últimos dias, a cronologia dos óbitos. Homens que caíram de telhados enquanto tentavam reparar estragos. Um bombeiro, militar da GNR, arrastado pelas águas em Campo Maior. Um empresário de turismo rural em Serpa, com o carro submerso junto a uma barragem. Uma jovem são-tomense, residente em Portugal há apenas duas semanas, que ficou presa dentro de casa, em Carvide, quando uma estrutura colapsou. E um homem, em Leiria, que morreu intoxicado por monóxido de carbono. O gerador, instalado numa garagem com pouca ventilação, deixara de funcionar. Ele foi ver o que se passava.
O Governo prolongou a situação de calamidade até domingo. São 68 os concelhos abrangidos, do Centro ao Alentejo, passando por Lisboa e Vale do Tejo. Montenegro anunciou medidas de apoio no valor de 2,5 mil milhões de euros. Mas, no terreno, os constrangimentos acumulam-se. A Linha do Norte está cortada para Alfa Pendular e Intercidades. A CP recomenda a consulta do site antes de qualquer viagem. Na Linha do Oeste, na Beira Baixa, no Douro, a circulação ferroviária é feita aos soluços. A Infraestruturas de Portugal garante que as equipas estão no terreno. Mas o país desloca-se com dificuldade.
Na Marinha Grande, entretanto, a câmara suspendeu a receção de donativos. O armazém está cheio. Roupa, alimentos, materiais de construção – tudo o que os portugueses enviaram solidariamente já não tem onde ser guardado. É uma pausa, garantiu a autarquia, apenas uma pausa para reorganizar a distribuição.
Brilhante Dias, no parlamento, ainda encontrou tempo para manifestar apreensão com a capacidade de resposta do país. Lembrou que, ao contrário do que sucedeu na pandemia, não há agora „um comando unificado“. Há um primeiro-ministro que acumula funções, uma ministra que sai a meio da tempestade e um Presidente que se limita a „respeitar a vontade“ de quem pede para sair. „Sair na terça-feira à noite“, repetiu o líder parlamentar do PS, „acho que é a primeira vez que vejo um membro do Governo sair no meio de uma situação tão difícil“. Depois fez uma pausa, como se procurasse na memória algum precedente. Não encontrou.
O país continua sob aviso. O Mondego continua a subir. E o Governo, agora com menos um ministro, tenta governar.
NR/HN/Lusa



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