“Não é compreensível”: sindicato pressiona ULS Lisboa Ocidental por respostas a 600 enfermeiros

13 de Fevereiro 2026

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses entregou hoje um abaixo-assinado com mais de 600 assinaturas à ULS Lisboa Ocidental. Os profissionais exigem a contratação de enfermeiros e a conclusão do processo de avaliação do desempenho, cujo atraso os impede de progredir na carreira desde o início de 2025

São Francisco Xavier, Egas Moniz, Santa Cruz. A estes três hospitais juntam-se 19 centros de saúde, num total de 40 unidades funcionais espalhadas por Lisboa ocidental. Foi deste universo que o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses recolheu mais de 600 assinaturas, entregues hoje em mão à administração da Unidade Local de Saúde. O documento não deixa margem para dúvidas: os enfermeiros querem ser avaliados para poderem progredir e querem que a instituição contrate mais colegas.

Isabel Barbosa, da direção regional do SEP em Lisboa, explicou à Lusa que o processo de avaliação referente a 2023 e 2024 simplesmente não andou. E sem avaliação, não há progressão. “Temos enfermeiros que já poderiam ter progredido no início de 2025 e que neste momento estão reféns deste atraso”, sublinhou. A sindicalista admitiu que os profissionais sentem, com esta paragem, que o trabalho que entregam diariamente vale menos. “Até como uma desvalorização do seu trabalho”, precisou, numa leitura que não esconde alguma amargura.

O abaixo-assinado chega numa altura em que a região de Lisboa e Vale do Tejo soma 343 camas fechadas. Não por opção clínica ou por falta de procura. Faltam enfermeiros para as guarnecer. Isabel Barbosa apontou o dedo às especialidades mais afetadas na ULS Lisboa Ocidental: “nomeadamente nas medicinas e cirurgias”. A dirigente sindical não se ficou pelo diagnóstico local. Recordou que, entre 2018 e 2022, o antigo Centro Hospitalar Lisboa Ocidental já figurava no top 10 das instituições nacionais com maior volume de horas extraordinárias e recorria, a eito, à prestação de serviços clínicos. O cenário, garantiu, pouco mudou. Apenas o nome da entidade é que é outro.

O SEP não poupa nas críticas ao modelo de funcionamento que diz vigorar na ULS. Os cuidados, lê-se no comunicado do sindicato, são garantidos à custa do recurso “às horas extraordinárias, à redução de elementos por turno, a elevados ritmos de trabalho e a horários violentos”. A expressão não é branda, mas é a que consta do documento. E acrescenta-se, com preocupação, que esta equação compromete “a segurança dos cuidados” e sobrecarrega as equipas até perto do limite.

Há um ano, sensivelmente em fevereiro de 2025, o SEP formalizou um pedido de reunião dirigido ao Conselho de Administração da ULS Lisboa Ocidental. A resposta, ou a falta dela, dura até hoje. “Não é compreensível que isto não aconteça”, atirou Isabel Barbosa, numa frase que soa a cansaço. A sindicalista insistiu na regularização da avaliação, nos retroativos devidos e no tal “investimento no serviço público” tantas vezes evocado e, diz, tão pouco praticado.

Há números que circulam há semanas e que os sindicatos repetem como um mantra. No final de janeiro, a contabilidade nacional de camas encerradas por falta de pessoal de enfermagem fixava-se nas 245 . A ULS Lisboa Ocidental contribuía para esse somatório com vinte camas. Vinte camas que poderiam estar a receber doentes e não estão. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, reconheceu há pouco mais de um mês que o Serviço Nacional de Saúde enfrenta uma “situação muito crítica” e que há, de facto, falta de enfermeiros . A Ordem dos Enfermeiros tem sido particularmente incisiva: os despachos ministeriais tiraram autonomia às instituições, que deixaram de poder substituir os profissionais que saem .

O abaixo-assinado está entregue. O SEP não promete, para já, uma greve ou um protesto de imediato. Isabel Barbosa adiantou que o sindicato vai auscultar os profissionais. Se não houver resposta às reivindicações, a direção avançará “para aquilo que os enfermeiros entenderem”. Ficou a promessa, vaga mas suficientemente clara, de que o tempo da espera passiva pode estar a esgotar-se.

NR/HN/Lusa

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