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Há qualquer coisa de subtilmente revolucionário num programa que se propõe ensinar miúdos a aprender-se. O Calmamente – nome quase paradoxal num tempo de ecrãs e pressão escolar – tem vindo a instalar-se devagar, mas sem pausa, no quotidiano de escolas de todo o país. A associação que o criou, Mente de Principiante, fala numa educação integral, daquelas que não cabem nos manuais e que, até há pouco, dependiam mais da sensibilidade de cada professor do que de uma metodologia estruturada.
Agora, o projeto chega a Santa Maria da Feira, onde várias escolas recebem, a partir desta semana, as primeiras sessões. É mais um ponto no mapa, que já vai desde os Açores, com a Solidaried’Arte, até à Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe. Pelo meio, ficaram concelhos como Macedo de Cavaleiros, Vila Nova de Paiva, Matosinhos – onde o Agrupamento de Escolas Abel Salazar abraçou a ideia – e instituições como os Salesianos do Porto ou o Centro Cultural de Amarante. E, no Porto, o Pallco, escola de artes performativas, onde os alunos de dança serviram, este trimestre, de cobaias de luxo: a avaliação de satisfação, agora concluída, devolveu níveis de reconhecimento elevadíssimos, sobretudo no contributo que o programa trouxe ao bem-estar dos estudantes.
Valongo foi dos primeiros municípios a estabelecer parceria ativa com o Calmamente. Hoje, a lista de autarquias parceiras inclui também Santa Maria da Feira, e há psicólogos, professores e técnicos de formação espalhados pelo terreno que aplicam o programa, sempre em articulação com a equipa que o desenhou. A Zona Norte e o Centro concentram a maior fatia das intervenções, mas a ambição, confessa Andreia Espain, é outra: uma expansão contínua, sustentada, e com os pés bem assentes na ciência.
É aí que entra a Universidade da Maia. O Departamento de Educação e Psicologia tem avaliado, de forma sistemática, o impacto do Calmamente. Não se trata apenas de recolher impressões: a equipa de investigadores mede resultados, aferiu benefícios, e os dados, até agora, têm consistência. A própria associação, as escolas e as câmaras também realizam os seus próprios inquéritos de perceção, mas é o crivo académico que dá peso ao currículo. Em 2020, o programa foi selecionado como Academia Gulbenkian de Conhecimento – um selo que, no mundo da educação não formal, funciona quase como um atestado de maturidade.
Andreia Espain, presidente da Mente de Principiante e autora do programa, não esconde a ambição contida: “Tendo em consideração os excelentes e consistentes resultados das avaliações de impacto e de satisfação, perspetivamos uma expansão contínua e sustentada das intervenções com o programa Calmamente, alicerçada, tal como até este momento, em fundamentação científica e dados comprovados, consolidando-se como referência na educação integral de crianças e jovens.”
O Calmamente não promete milagres, nem os vende. O que faz é sentar-se no mesmo banco que os alunos – da pré-escola ao secundário – e falar de coisas como autorregulação, consciência emocional, atenção plena. A relação com os outros, claro, mas também, e talvez sobretudo, a relação consigo próprio. Aprender a aprender-se.
PR/HN/MM



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