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A notícia chegou sem aviso formal, ou assim o garante o município. A Câmara de Penamacor lavrou ontem um protesto contra a administração da Unidade Local de Saúde de Castelo Branco, depois de ter tomado conhecimento de que o Serviço de Atendimento Complementar do Centro de Saúde local passará a fechar portas sempre que não haja médico de serviço. O que para a ULS poderá ser visto como um ajuste de escala, para a autarquia traduz-se no esvaziamento de um direito.
Em comunicado, o executivo liderado pelo socialista José Miguel Oliveira não poupa palavras à decisão: consideram-na “profundamente errada”, “socialmente injusta” e, num tom que denota cansaço institucional, “territorialmente discriminatória”. Mas o que parece ter ferido o município não foi apenas a medida em si, mas o silêncio que a precedeu. A autarquia garante que ninguém da ULS deu conhecimento prévio ao poder local nem às entidades que diariamente lidam com a unidade de saúde. Há aqui, dizem, um “completo desrespeito” por quem conhece o terreno.
O concelho, que já foi mais jovem e mais povoado, ressente-se agora de um Interior que insiste em perder serviços em vez de os reforçar. A nota municipal é clara ao lembrar que o atual executivo, mal tomou posse, procurou o presidente da ULS de Castelo Branco. Não foi uma visita de cortesia. A Câmara diz que manifestou disponibilidade imediata para colaborar na captação de clínicos, que andou a contactar médicos, que se propôs até a suportar parte dos custos da sua vinda. Queriam garantir, pelo menos, que o SAC funcionasse todos os dias com um médico. Em vez disso, diz a autarquia, veio o encerramento parcial.
A ULS de Castelo Branco, ouvida pela Lusa, confirma a alteração do funcionamento, mas enquadra-a de forma distinta. Na ausência de médico escalado, o SAC encerra, ponto. As consultas de enfermagem, essas, serão redirecionadas para a Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados, através de consulta de intersubstituição, e os cuidados domiciliários ficarão a cargo da Unidade de Cuidados na Comunidade. O conselho de administração assegura que a decisão foi dada a conhecer internamente, aos colaboradores. Quanto ao município, o comunicado da autarquia prova que, de facto, ninguém os preveniu.
O problema, insistem os responsáveis autárquicos, não é apenas administrativo. É humano. Num território onde os habitantes são maioritariamente idosos, onde as povoações se dispersam pela serra e as distâncias a outras unidades de saúde são longas e caras, fechar o SAC nos dias sem médico não é um mero ajuste de agenda. É, na leitura da câmara, retirar uma rede a quem já caminha sobre vidro. As deslocações forçadas, avisam, nem sempre são possíveis. E quando o são, representam um custo que muitos não suportam e um risco clínico que deveria ter sido evitado.
Até ao fim do dia, a autarquia mantinha a exigência de reversão imediata. Dizem que não vão normalizar o que entendem ser o desmantelamento de serviços, e que continuarão a bater às portas institucionais. Mesmo que, até agora, essas mesmas portas não lhes tenham dado resposta.
NR/HN/Lusa



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