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A expressão saiu-lhe sem filtro, entre o desabafo e a constatação política. José Luís Carneiro visitava os estragos da tempestade Marta no concelho de Alenquer quando, rodeado por autarcas e por quem perdeu o chão de casa — literalmente —, decidiu apontar o dedo à forma como o Executivo tem gerido a crise. “Isto não vai lá com visitas de médico de um ministro que passa pelos territórios literalmente como visita de médico para depois não dar resposta às pessoas”, disparou.
Não era uma crítica à disponibilidade dos governantes para calcorrear o lamaçal, esclareceu. Era à ineficácia do gesto. O líder socialista insistiu na tese de que falta coordenação e que o primeiro-ministro não pode delegar apenas nos vários membros do Governo a ida ao terreno sem que exista um fio condutor. “É ele que deve pegar no telefone — ou em quem ele delega essa competência — para ligar às autarcas, para que as autarcas não sintam a necessidade de estarem permanentemente a fazer os mesmos apelos por falta de sensibilidade de resposta da parte do Governo”, sustentou.
À sua frente, o cenário era de rutura. Números fornecidos pelo município dão conta de 27 desalojados, 75 deslocados, 32 estradas cortadas e outras 52 condicionadas. João Nicolau, presidente da Câmara de Alenquer, eleito pelo PS, não escondia a exaustão. “Esta última tempestade Marta afetou muito o nosso concelho, muitas estradas destruídas, uma escola primária destruída, muitas habitações também afetadas e algumas delas em ruína completa”, elencou, num tom que oscilava entre o diagnóstico técnico e a impotência. O município já remeteu ao Governo um relatório preliminar onde quantifica entre seis a sete milhões de euros os prejuízos.
Numa das ruas ainda parcialmente interdita, ouvia-se o barulho de bombas de água a trabalhar. Moradores retiravam móveis das habitações. Uma mulher, de idade não identificada, disse à agência Lusa que dorme no primeiro andar desde que o rés-do-chão ficou submerso. “Tenho um armazém no quintal e lá dentro deve estar tudo estragado. Não faço ideia do prejuízo”, referiu. O autarca confirmou que, na localidade da Mata, 40 pessoas tiveram de sair de casa numa única noite, algumas realojadas em lar, outras em casa de familiares. A aldeia de Ribafria está praticamente isolada, com apenas um dos cinco acessos disponível.
Carneiro defendeu que o Governo alargue a situação de calamidade a mais concelhos do Oeste e da Lezíria do Tejo. Alenquer e Arruda dos Vinhos aguardam resposta. Questionado sobre o adiamento do debate quinzenal, concordou com a decisão, mas fez questão de lembrar que durante a pandemia a Assembleia nunca parou. “É neste órgão que é feito o escrutínio e a fiscalização do Governo”, sublinhou, num tom que não era de confronto, mas de registo. Como quem diz: a política também se faz com parlamento a funcionar.
NR/HN/Lusa



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