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A sensação de maior acuidade mental após o exercício, tantas vezes relegada para o domínio do anedótico ou do puramente subjetivo, encontrou agora uma âncora biológica. Uma colaboração entre a Universidade da Pensilvânia e centros de investigação japoneses dedicou-se a perseguir, no emaranhado de circuitos que governam o metabolismo, o rasto neuronal deixado pela passadeira.
Nicholas Betley, que assina a investigação, conta que o ponto de partida foi quase banal: «Muitas pessoas dizem que se sentem mais ágeis e com a mente mais clara depois de se exercitarem». Mas a banalidade da perceção escondia um mecanismo até agora opaco. Para o iluminar, a equipa submeteu ratos, cérebro alterado para mimetizar características humanas, a semanas de corrida diária. Durante esse período, os animais foram monitorizados com recurso a técnicas fisiológicas, de imagem e moleculares.
A princípio, os cientistas constataram que, finda a corrida, a agitação neuronal não cessava. Pelo contrário: as células nervosas do hipotálamo ventromedial — região já conhecida por regular o gasto energético e a glicemia — mantinham-se num estado de excitação invulgar. Mais do que isso, os neurónios SF-1, uma subpopulação específica daquela área, permaneciam ativos durante, pelo menos, sessenta minutos depois de os roedores terem parado de correr.
Ao fim de catorze dias de treino, os ratos corriam mais e cansavam-se mais tarde. Mas a verdadeira surpresa, insistem os autores, residia no próprio tecido cerebral: a ativação dos neurónios SF-1 tornara-se não só mais pronunciada como mais intensa, algo que não se observava nos animais que não treinavam. Foi então que decidiram silenciar estas células. Bloqueada a comunicação dos SF-1 com o resto do cérebro, os benefícios acumulados evaporaram-se. Os ratos deixaram de desenvolver resistência e as melhorias metabólicas e hemodinâmicas características do exercício simplesmente não ocorreram.
«Este resultado indica que os neurónios SF-1 são de vital importância para ativar os circuitos neurais e fortalecer o cérebro após o exercício», sublinhou Betley, em comunicado divulgado pela sua universidade. O que parece estar em jogo, detalha o neurocientista, é uma otimização do uso da glicose armazenada. Ao gerirem de forma mais eficiente este combustível, os SF-1 aceleram a recuperação orgânica, permitindo que músculos, pulmões e coração se adaptem com maior presteza a cargas progressivas.
A neurocientista Coral Sanfeliu, do Instituto de Investigação Biomédica de Barcelona, que não participou no estudo mas foi convidada a comentá-lo pelo Science Media Centre, antecipa um horizonte terapêutico. «Esta descoberta poderá, no futuro, permitir-nos potenciar o treino ativando os circuitos neuronais SF-1 ou mesmo sem exercício», afirmou. «Isto permitiria que pessoas com mobilidade reduzida usufruíssem dos benefícios cerebrais do exercício físico.»
Não é a primeira vez, nos últimos meses, que a literatura científica insiste na transversalidade dos efeitos da atividade física sobre o cérebro. Estudos anteriores já haviam demonstrado que mesmo incrementos modestos na locomoção diária — uns tantos passos extra — produzem ganhos cognitivos e emocionais mensuráveis. Alguns chegaram mesmo a sugerir que estas melhorias podem ser transmitidas à descendência. O trabalho agora publicado acrescenta, contudo, um rosto concreto a essa nebulosa: um punhado de neurónios profundamente enterrados no hipotálamo que, de cada vez que corremos, acendem uma luz que demora a apagar-se.
NR/HN/Lusa



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