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A conta chega sempre, e parece que alguém se esqueceu de a pagar. Quem o diz é o GAT, que veio esta manhã lembrar o óbvio: a factura das infeções evitadas – ou não – acaba sempre nos sistemas de saúde. Em vésperas do Dia Internacional do Preservativo, a 13 de fevereiro, a organização não-governamental quebrou o silêncio sobre o que chama de “reduções drásticas e repentinas” no financiamento global da resposta ao VIH, anunciadas pelos Estados Unidos ainda no início de 2025. O aviso é claro: não querem ver o filme repetir-se em Portugal.
Ricardo Fernandes, diretor-geral adjunto do GAT, não tem ilusões. Numa declaração enviada às redações, o responsável desmonta a aparente simplicidade do slogan. “O preservativo é básico, funciona e continua a ser uma das ferramentas mais custo-eficazes para prevenir VIH e IST. Mas não basta dizer ‘basta usar’”. E acrescenta, sem margem para dúvidas: é preciso que haja vontade política para garantir acesso, planeamento e recursos. O país, defende, precisa urgentemente de um plano de prevenção do VIH e das infeções sexualmente transmissíveis. Financiado, claro. E com dados nacionais sobre o uso do preservativo – esses mesmos que faltam para ajustar as respostas a quem mais precisa.
Cortar na prevenção, insiste a ONG, não é poupar. É adiar a fatura. E custa vidas.
O alerta não surge no vazio. Em 2024, segundo a Direção-Geral da Saúde, houve 997 novos diagnósticos de VIH em Portugal. Números que, para o GAT, não são meras estatísticas; são o reflexo de políticas públicas que teimam em ser “consistentes e sustentadas” só no papel. A organização sublinha que o preservativo não pode ser visto como uma peça avulsa. Deve estar no centro de uma estratégia combinada – a par da testagem, do tratamento, da vacinação, da PrEP e da PPE. Mas sem financiamento, essa centralidade esvazia-se.
Do outro lado do tabuleiro, Daniel Reijer, chefe do Gabinete da AIDS Healthcare Foundation (AHF) na Europa, atira a última acha. “O Dia Internacional do Preservativo é um lembrete de que a prevenção não pode ser descartável”, recorda. “Quando o financiamento falha, as consequências não desaparecem – acumulam-se em infeções evitáveis e em vidas impactadas.” Palavras que ganham corpo numa iniciativa concreta: esta sexta-feira, as equipas do programa “GAT Move-se” vão estar na rua para distribuir seis mil preservativos e informação sobre saúde sexual. A ação, em parceria com a AHF e com o apoio das câmaras de Almada e Seixal, cobre três pontos da Área Metropolitana de Lisboa. Na Estação do Oriente, em Lisboa, entre as 10:00 e as 16:00. Na Praça São João Batista, em Almada, e no Fogueteiro, junto à bomba da Cepsa, no Seixal, ambos entre as 09:30 e as 15:30.
Não se trata, garantem, de uma questão individual. “Está também uma decisão política”, sustenta o comunicado do GAT, numa altura em que o financiamento global para a saúde encolhe e a eliminação do VIH, essa meta tantas vezes anunciada, parece ganhar contornos de miragem.
NR/HN/Lusa



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