Democratas acusam Departamento de Justiça de espiar congressistas no caso Epstein

13 de Fevereiro 2026

Congressistas democratas exigiram esta quinta-feira ao inspetor-geral do Departamento de Justiça a abertura de uma investigação ao que classificam como espionagem do governo sobre as pesquisas que legisladores realizaram nos ficheiros referentes a Jeffrey Epstein. A queixa surge na sequência de uma fotografia captada durante a audição de Pam Bondi na Comissão Judiciária da Câmara, onde a procuradora-geral surge com uma pasta onde se lê “Histórico de Busca de Jayapal Pramila”, congressista que reviu documentos do caso

Foi numa pasta branca, aberta sobre a mesa, que a procuradora-geral Pam Bondi revelou, sem querer, aquilo que os democratas consideram ser a mais recente investida da administração Trump contra a supervisão do Congresso. A fotografia, captada durante uma acesa troca de argumentos na Comissão Judiciária da Câmara, mostra a página de rosto de um dossiê com o título “Histórico de Busca de Jayapal Pramila”, congressista do estado de Washington. Dentro, uma lista de documentos relacionados com Jeffrey Epstein — versões menos expurgadas dos ficheiros criminais — que Jayapal e outros membros do órgão consultaram esta semana, em computadores do Departamento de Justiça e numa sala anexa.

Jamie Raskin, o principal democrata na comissão, não poupou palavras. Em comunicado, descreveu a atitude de Bondi e da sua equipa como uma “tentativa flagrante de interferir nos processos de supervisão do Congresso”. Disse mais: que o Departamento de Justiça, além de ter retido registos dos legisladores, está agora a rastrear o que cada um pesquisou. “Espiar membros do Congresso que exercem funções de fiscalização não é aceitável. O departamento deve cessar imediatamente o rastreio, abrir aos altos funcionários do Congresso a totalidade da investigação e divulgar publicamente todos os ficheiros”, defendeu. Com uma condição: que apenas os dados das vítimas — muitas delas menores à data dos abusos — permaneçam devidamente rasurados, como a lei federal exige.

A resposta da administração Trump, contudo, tem sido a de que cumpriu a obrigação legal. Todd Blanche, procurador-geral adjunto e antigo advogado pessoal do Presidente, reiterou na audição que o departamento disponibilizou mais de três milhões de páginas, dois mil vídeos e cento e oitenta mil imagens relacionadas com as investigações a Epstein. O volume, contudo, não satisfaz os congressistas. Vários dos que consultaram os documentos queixaram-se de que os nomes de muitos parceiros do criminoso continuam ocultos, cobertos por rasuras que consideram excessivas.

Na sala, durante a intervenção de Bondi, Pramila Jayapal pediu às vítimas de Epstein presentes que levantassem a mão caso nunca tivessem reunido com o Departamento de Justiça. Todas ergueram o braço. Foi nesse momento que a congressista, já depois de ter pressionado Bondi sobre os critérios de divulgação, recorreu à rede social X para deixar uma pergunta: “Bondi tem tempo de sobra para espiar membros do Congresso, mas não consegue pedir desculpa às vítimas dos abusos horríveis de Epstein?”. Numa declaração posterior, Jayapal classificou a alegada vigilância como “totalmente inaceitável” e assegurou que os legisladores vão “exigir uma prestação de contas completa” sobre a forma como o governo utiliza o histórico de navegação e pesquisa dos parlamentares.

Bondi, nomeada por Trump após a saída de Merrick Garland, não comentou diretamente a fotografia. Durante a audição, preferiu concentrar-se no que descreveu como o empenho do departamento em honrar a lei aprovada pelo Congresso em novembro — legislação que obriga à transparência total sobre Epstein. A procuradora-geral, que já se referiu a Trump como “o melhor Presidente da história dos Estados Unidos”, tem defendido que a divulgação deste mês é prova de que a administração não esconde nada.

O caso, porém, parece longe de se encerrar. Epstein, que morreu na prisão em agosto de 2019 sem ter ido a julgamento por exploração sexual, deixou um rasto que atravessa fronteiras e décadas. Os documentos agora libertados reacenderam controvérsias que atingem a realeza britânica e norueguesa, instituições académicas e financeiras, além de políticos de vários países — França, Reino Unido, México, Rússia. Donald Trump, que manteve com Epstein uma relação de proximidade durante anos, volta a ver o seu nome citado nos papéis.

A exigência de investigação entregue ao inspetor-geral do Departamento de Justiça acrescenta um novo capítulo a uma história feita de sombras, omissões e, agora, vigilância sobre quem tenta iluminá-la.

NR/HN/Lusa

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