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A Secção Regional do Norte da Ordem dos Farmacêuticos acolhe, no próximo dia 28 de março, a Reunião Anual de Farmácia Comunitária 2026. O evento é convocado pelo Conselho do Colégio de Especialidade de Farmácia Comunitária (CCEFC-OF) e espera farmacêuticos de todo o país num programa que os organizadores desenharam a pensar naquilo que a profissão enfrenta hoje — e enfrentará amanhã .
O lema escolhido, “Inovação, Ética e Resposta aos Desafios em Saúde”, não funciona propriamente como um slogan vazio: os painéis foram montados para cruzar a ciência mais dura com as perguntas que ficam por responder. De manhã, o foco está na obesidade e na revolução silenciosa que os análogos do GLP-1 e GIP trouxeram para a prática diária. Não se trata apenas de dispensar uma caneta. Quem trabalha ao balcão sabe que, muitas vezes, o que chega à farmácia é a procura por uma solução rápida, vinda de pessoas sem diabetes, sem critérios de obesidade estabelecidos, e isso obriga o farmacêutico a um exercício difícil: o de explicar, sem estigmatizar, que a perda de peso não se resume a uma injeção semanal . A evidência apresentada nos ensaios clínicos — perdas de peso de 10% a 20% — contrasta com a realidade de abandonos precoces e efeito rebote. O programa reserva duas partes do mesmo tema para que se possa, espera-se, ir além da farmacologia e entrar no campo da intervenção farmacêutica sustentada.
A tarde muda de registo. Sobem à discussão temas que, até há pouco tempo, pareciam pertencer a outros universos profissionais. A cibersegurança em farmácia comunitária, por exemplo. Não é segredo que as farmácias têm sido alvo de ataques informáticos, e o setor da saúde é particularmente vulnerável. João Paulo Cabecinha, administrador executivo da Glintt Global, tem alertado para a necessidade de identificar padrões de atividade invulgares de forma autónoma, gerindo notificações e propondo respostas antes que o dano esteja consumado . Mas a tecnologia, sozinha, não chega. Ema Paulino, presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), sublinha que a interoperabilidade entre sistemas e o tão falado Registo de Saúde Eletrónico Único são passos incontornáveis — e Portugal ainda não os deu completamente .
Depois, há o peso das catástrofes. O programa inclui um painel sobre situações de emergência e planos de contingência para a intervenção farmacêutica. É um tema que, infelizmente, se tornou mais premente do que se desejava. Incêndios, pandemias, crises humanitárias: a farmácia comunitária é, quase sempre, o último recurso a fechar e o primeiro a reabrir. Discutir planos de contingência não é exercício teórico; é admitir que o próximo desastre pode estar à porta.
E depois há a Inteligência Artificial. O assunto tem gerado, entre os farmacêuticos, um misto de fascínio e receio. O programa dedica-lhe uma keynote e uma mesa-redonda, ambas centradas nos desafios éticos. Mara Guerreiro, investigadora da Egas Moniz, lembra que, em Portugal, a discussão ainda anda muito no campo das possibilidades e pouco no da implementação concreta . Há exceções, claro. Algumas farmácias já utilizam ferramentas de IA para gestão de stocks ou para sinalizar precocemente doentes em risco — diabetes, por exemplo — através da análise de padrões de consumo . Mas a adopção é fragmentada e, sem um mapeamento nacional, ninguém sabe ao certo quantos passos nos separam da Suécia, que já instalou farmácias no metaverso.
Há aqui uma tensão que o programa não ignora: a mesma tecnologia que liberta tempo para o contacto humano pode, se mal governada, substituir a relação de confiança que define a farmácia de proximidade. Isabel Cortez, presidente da Associação de Farmácias de Portugal (AFP), tem sido clara ao afirmar que a IA não deve nunca substituir a interação humana, mas sim reforçá-la — e que a sua aplicação exige transparência e justiça nos algoritmos . Do lado da Ordem dos Farmacêuticos, Helder Mota Filipe, bastonário, defende que a literacia em Inteligência Artificial é, neste momento, tão estruturante como o conhecimento farmacoterapêutico. Sem profissionais capacitados para usar criticamente estas ferramentas, a promessa da eficiência pode esbarrar na perda de sentido clínico .
Paralelamente, a reunião reserva espaço para reconhecer quem já está a fazer. O Prémio Inovação em Farmácia Comunitária 2026 distingue projetos desenvolvidos no terreno, com impacto real e replicável. Os dois melhores trabalhos são publicados na Revista Farmácia Clínica e os autores recebem um vale de 500 euros para formação na Escola de Pós-Graduação em Saúde e Gestão . As candidaturas estão abertas até 28 de fevereiro, e o regulamento, disponível no site da Ordem, é claro quanto ao que se procura: inovação, sustentabilidade e, sobretudo, que o projeto consiga sair do papel e chegar às pessoas.
As inscrições, entretanto, já decorrem. Até 28 de fevereiro, farmacêuticos pagam 50 euros na modalidade presencial — valor que inclui almoço — e os membros estudantes da OF não pagam. Após essa data, os preços sobem para 65 euros. Há também lugar para quem não puder deslocar-se ao Porto: a modalidade online mantém-se nos 50 euros, com acesso aos webinares gratuitos que ladeiam o evento principal. No dia 24 de março, véspera da reunião, o tema é a consulta farmacêutica e o seu impacto. Já a 16 de abril, depois do encontro, haverá uma sessão dedicada ao esclarecimento de dúvidas sobre o título de especialista em Farmácia Comunitária e o processo de candidatura de 2026 .
Não se sabe ainda quantos farmacêuticos marcarão presença, mas a expectativa, nos corredores da Ordem, é que a lotação esgote. O programa, denso e recortado por temas que até há meia dúzia de anos não constariam de uma agenda profissional, reflete o quanto a farmácia comunitária deixou de ser apenas o sítio onde se aviam receitas. Hoje, discute-se o músculo que se perde quando se emagrece com fármacos milagrosos; discute-se o dever de reportar em farmacovigilância; discute-se o que fazer quando a data center da farmácia é encriptada por um ataque externo. Discute-se, afinal, o que significa ser um profissional de saúde num tempo em que a técnica e a ética raramente caminham à mesma velocidade.
PR/HN/MM



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