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A Carolina deixava o prato quase intacto. Não era falta de fome, explicou mais tarde aos pais: estava num nível do jogo que não podia interromper. O episódio, relatado por uma mãe numa escola da Maia, cabe na definição que os investigadores agora afinaram. Não se trata apenas de horas à frente do ecrã. O uso problemático da internet, tal como o estudo europeu BootStRaP o descreve, manifesta-se quando os jovens negligenciam cuidados básicos — comer, dormir, conviver — para permanecerem online.
Carolina Cordeiro, investigadora do Centro de Psicologia da Universidade do Porto (CPUp), esteve envolvida na análise dos dados recolhidos em nove países. Ao telefone, tentou traduzir números em quotidianos: “A partir do momento em que a pessoa começa a negligenciar os seus cuidados básicos” para fazer compras online ou para se manter nas redes sociais, entramos noutro patamar. “Uma perturbação que pode ter um impacto no bem-estar dos jovens, tanto físico como mental”, acrescentou.
Os números preliminares, agora divulgados, indicam que quatro em cada dez adolescentes entre os 12 e os 16 anos revelam sinais de risco elevado. Participaram no estudo 250 jovens portugueses, num total de 1961 — os restantes distribuíam-se pelos Países Baixos (170), Lituânia (427), Hungria (47), Reino Unido (85), França (137), Espanha (444), Alemanha (97) e Suíça (302). A amostra, composta por voluntários recrutados em contextos escolares, não é representativa da população geral, mas os investigadores consideram os sinais suficientemente robustos para acender alertas.
O projeto, financiado pelo programa Horizonte Europa, arrancou em finais de 2024. Em dezembro desse ano começou a ser desenvolvida uma aplicação móvel que viria a tornar-se o coração da pesquisa. Durante seis meses, até maio de 2025, os adolescentes responderam a questionários semanais sobre bem-estar, saúde física e mental. O telemóvel, esse objeto que muitos pais já olham de lado, foi transformado em instrumento de medida: monitorizou número de passos, tempo despendido em jogos, permanência em redes sociais. Os dados, publicados na revista científica Comprehensive Psychiatry, permitiram cruzar comportamento declarado e comportamento efetivo.
Célia Sales, responsável pela implementação do BootStRaP em Portugal e também investigadora do CPUp, preferiu não falar em dependência — termo que, defende, carrega estigmas e imprecisões clínicas. Numa nota distribuída pela Universidade do Porto, sublinhou antes a questão da vulnerabilidade: “Os adolescentes são particularmente vulneráveis” e “isso pode levar a uma perda gradual de controlo sobre o comportamento online”. A ideia de perda de controlo, aliás, atravessa toda a investigação. Muitos dos jovens inquiridos, explicou Carolina Cordeiro, recorrem à internet como estratégia para lidar com o stress, a ansiedade ou emoções desconfortáveis. A dificuldade em parar não deriva apenas do prazer, mas também do alívio.
Nas escolas portuguesas envolvidas — Alfena, Águas Santas e Maia — os alunos não foram meros fornecedores de dados. Participaram no desenho da aplicação, na formulação das perguntas, no recrutamento de colegas. Tomás Rodrigues, estudante embaixador do projeto no agrupamento da Maia, disse à comunicação da universidade que as tarefas lhe pareceram “simples e fáceis de realizar”. E acrescentou, numa frase que os investigadores fizeram questão de preservar: “Sinto que são também uma pequena forma de refletir sobre o meu dia.” A equipa — onde trabalham ainda Teresa Dias, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE), e Hernâni Oliveira, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), que coordenou a cocriação tecnológica da app — insiste nesta dimensão participativa. Não é retórica: a ideia de ciência cidadã, aqui, traduziu-se em miúdos de 14 anos a opinar sobre design de interfaces.
Os objetivos do projeto, que se prolonga por cinco anos, vão além da fotografia instantânea. Pretende-se identificar precocemente adolescentes em maior risco, desenvolver estratégias personalizadas de autogestão e, não menos importante, avaliar o custo económico do uso problemático da internet na saúde mental dos jovens europeus. A app não se limitou a recolher informação: ensaiou mecanismos de intervenção, enviando alertas quando o utilizador ultrapassava determinados limiares ou apresentava padrões de comportamento repetitivos. É cedo para avaliar a eficácia, admitem as investigadoras. Mas o trajecto, garantem, está a ser desenhado com os próprios adolescentes.
Houve alturas, confessou Carolina Cordeiro, em que os dados lhes pareceram contraditórios. Rapazes que declaravam passar menos tempo online do que a app registava; raparigas que subestimavam o número de acessos diários ao Instagram. A diferença entre o uso percebido e o uso real é, em si mesma, um dado. “Os adolescentes até podem passar menos tempo na internet, mas as consequências podem ser mais gravosas”, insistiu a investigadora. Depende do que fazem nesse tempo, do que substituem por ele, do que perdem enquanto estão ligados. O estudo não responde a todas as perguntas. Deixou, por exemplo, por apurar quantos destes jovens procuraram ajuda. Ou quantos reconhecem, sem vergonha, que o problema existe.
O projecto BootStRaP, sigla para Boosting Societal Adaptation and Mental Health in a Rapidly Digitalising, Post-Pandemic Europe, é coordenado internacionalmente por Naomi Fineberg, da Universidade de Hertfordshire, e José Manuel Menchón, do IDIBELL e do Hospital Universitário de Bellvitge, em Espanha. Envolve 22 instituições de 14 países. A publicação na Comprehensive Psychiatry constitui a primeira grande divulgação dos resultados da fase de recolha. Os dados completos, com análises longitudinais, deverão ser conhecidos ainda este ano.
No comunicado que fez chegar às redacções, a Universidade do Porto evitou alarmismos. Preferiu falar em “sinais de alerta” e na necessidade de “abordagens integradas”. Os pais, lê-se, devem estar atentos não tanto ao cronómetro, mas ao que fica pelo caminho. A refeição que arrefece. A conversa que não acontece. O sono adiado.
NR/HN/Lusa



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