Mortalidade por doença coronária não diminui há dez anos nos portugueses com menos de 75 anos

13 de Fevereiro 2026

Apesar da quebra na mortalidade geral por doenças cardiovasculares, os dados relativos à população mais jovem em Portugal mantêm-se inalterados na última década. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) aproveita o Dia Nacional do Doente Coronário, assinalado a 14 de fevereiro, para lançar um alerta sobre esta estagnação e defender novas medidas de prevenção. A campanha "Corações Acesos" está este ano centrada nesta temática

O retrato traçado pela SPC baseia-se no relatório “10 Anos de Doença Cérebro Cardiovascular em Portugal”, da Direção-Geral da Saúde, e revela uma realidade que os especialistas classificam como preocupante: enquanto a taxa de mortalidade por doença coronária tem vindo a descer na população em geral, o mesmo não sucede entre os que têm menos de 75 anos. Os números, que indicam uma paragem na redução dos óbitos neste grupo etário, são interpretados pela SPC como o reflexo de uma “falha crítica” na prevenção dirigida a quem ainda está em idade ativa.

Cristina Gavina, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, sublinha que os avanços no tratamento das fases agudas da doença são inegáveis, mas insuficientes para alterar o cenário de fundo. “Estes números são um claro sinal de alerta. Estamos a ser bem-sucedidos no tratamento e na resposta ao evento agudo, mas estamos a falhar na prevenção junto da população em idade ativa”, afirma, lembrando que a campanha “Corações Acesos” procura justamente chamar a atenção para esta falha e incentivar uma mudança cultural na abordagem à saúde cardiovascular.

Entre 2017 e 2023, os internamentos por enfarte agudo do miocárdio (EAM) recuaram 20,7%, um dado positivo que os especialistas associam, em parte, à melhoria dos cuidados. No entanto, o perfil dos doentes que dão entrada nos hospitais mantém uma elevada carga de comorbilidades: mais de metade (52,2%) sofre de hipertensão e um quarto (25,9%) tem diabetes. Estes fatores, conjugados com a obesidade, continuam a ser determinantes no risco cardiovascular e justificam, para a SPC, a necessidade de intervenções mais precoces e alargadas.

No início da semana, a sociedade científica lançou uma petição pública onde elenca algumas das medidas que considera prioritárias. Entre elas, a comparticipação de medicamentos para a obesidade em doentes com doença cardiovascular, mesmo quando não há diabetes associada, e a criação de um programa de rastreio do risco cardiovascular alargado à população. “Tratar a obesidade não é uma questão estética; é uma questão metabólica com consequências graves. A comparticipação destes medicamentos é um investimento que reduzirá a despesa futura com as complicações da doença cardiovascular”, defende Cristina Gavina, acrescentando que rastrear o risco é uma forma de “salvar muitas vidas e dar mais qualidade de vida à população”.

Para a SPC, a prioridade estratégica para a próxima década deve passar por integrar melhor os cuidados de saúde, reforçar a prevenção em idade ativa e aperfeiçoar os tratamentos com base em dados nacionais auditados. A campanha “Corações Acesos” está disponível online e inclui informação detalhada sobre a doença coronária e as formas de a prevenir. Mais informações podem ser encontradas em https://coracaoaceso.pt/. A petição pública pode ser assinada em https://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT129725.

PR/HN/MM

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