O testemunho que destoa na CPI: ex-presidente da Liga dos Bombeiros elogia antigo líder do INEM

13 de Fevereiro 2026

O período de rutura entre o INEM e os bombeiros foi superado graças a uma dinâmica de diálogo instituída com a presidência de Luís Meira, segundo o ex-líder da Liga dos Bombeiros Portugueses. Jaime Marta Soares afirmou hoje, no parlamento, que a relação bilateral se transformou por completo, passando de um ciclo de afastamento para uma fase de entendimento "profundo e construtivo"

O antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses Jaime Marta Soares testemunhou esta quarta-feira na comissão parlamentar de inquérito ao INEM, onde traçou um retrato pouco habitual do relacionamento entre as duas instituições. Durante a sua intervenção, o ex-dirigente sublinhou que, até à chegada de Luís Meira à presidência do instituto, vigorava um clima de afastamento que classificou como de “costas voltadas”. Esse padrão, disse, inverteu-se.

“Conseguimos, eu e o doutor Meira, mudar completamente a face da vivência da Liga com o INEM”, declarou, numa referência direta ao antigo responsável. Marta Soares fez questão de individualizar o mérito da transformação, evitando generalizações sobre a instituição. O diálogo, antes inexistente ou meramente protocolar, passou a ser regular e sustentado, com reuniões mensais que abriram caminho a negociações concretas.

Uma das frentes onde essa aproximação produziu efeitos foi na logística das vistorias. Os corpos de bombeiros enfrentavam deslocações longas, com custos operacionais e financeiros que sobrecarregavam as corporações. Marta Soares recordou o processo negocial que levou à descentralização das inspeções, permitindo que passassem a ser realizadas nas áreas de origem, junto dos centros de inspeção já existentes. Foi, no seu entender, uma solução de senso prático, possível apenas porque houve quem estivesse disposto a ouvir.

O ex-presidente da Liga destacou ainda o papel de mediação que a estrutura foi chamada a desempenhar em matérias delicadas. Em diversas ocasiões, a Liga serviu de anteparo a potenciais ruturas entre o INEM e os bombeiros, esclarecendo pontos de atrito que, de outro modo, poderiam ter escalado. Não se tratou, sublinhou, de assumir funções que não eram suas, mas de evitar que o sistema de emergência sofresse fraturas desnecessárias.

Outro dos avanços referidos prende-se com o financiamento para aquisição de ambulâncias. Marta Soares explicou que, entre 2017 e 2019, foi possível acordar um mecanismo que permitiu renovar cerca de duas centenas de viaturas afetas aos Postos de Emergência Médica. O INEM aceitou que estas ambulâncias tivessem uma identidade própria — um pormenor ao qual os bombeiros atribuíam importância simbólica e funcional. A disponibilidade da frota aumentou, e a resposta no pré-hospitalar ganhou em capacidade e resiliência. As coberturas, insistiu, tornaram-se mais adequadas.

A comissão de inquérito, composta por 24 deputados, prossegue os trabalhos para esclarecer responsabilidades na greve dos técnicos de emergência no final de 2024, período durante o qual ocorreram doze mortes associadas a atrasos no socorro, de acordo com a IGAS. Mas o mandato da CPI recua a 2019, abrangendo sucessivos governos e tutelas. As audições têm colhido depoimentos díspares: enquanto associações de técnicos apontam falhas de planeamento e criticam lideranças recentes, o testemunho de Marta Soares descreveu uma janela de cooperação institucional que contrasta com o tom prevalecente nas anteriores sessões.

O ex-líder da Liga não se alongou em críticas à gestão atual. Preferiu fixar-se no período em que, diz, foi possível trabalhar. As decisões tomadas então, defende, produziram resultados visíveis no terreno. Os bombeiros ganharam meios; o sistema ganhou eficácia. O que veio depois, sugeriu sem o dizer expressamente, já não lhe caberia avaliar. Mas ao enunciar o que se fez quando houve interlocução, deixou implícito o contraste com o que veio a seguir.

NR/HN/Lusa

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