Proinfância. Quatro anos a puxar 1970 crianças para fora do ciclo da pobreza

13 de Fevereiro 2026

Quase duas mil crianças e mais de mil famílias em situação vulnerável foram acompanhadas pelo Proinfância desde 2021. Programa chegou a 13 municípios e mobilizou 66 entidades. Mãe são-tomense de quatro filhos conta como terapia da fala e refeições escolares mudaram o quotidiano: o mais novo, de nove anos, já “lê lindamente”

Quase dois mil — novecentos e setenta, para sermos exactos. É este o número de crianças e jovens que o programa Proinfância conseguiu alcançar entre 2021 e 2025 em Portugal. Do outro lado da equação, 1290 famílias. Gente que, sem rede, teria ficado pelo caminho. A Fundação “la Caixa” fez ontem o balanço, e os números, por mais frios que pareçam, aquecem vidas. Só no ano passado, 1451 crianças e 977 agregados familiares estavam a ser acompanhados.

O programa, que por cá pegou em 2021, não inventa a roda. Vem de Espanha, onde existe desde 2007, e assenta numa lógica de rede: juntar escolas, juntas de freguesia, instituições sociais, e depois actuar nas brechas. Material escolar, sim. Mas também consultas de psicologia, ocupação de tempos livres, óculos, aparelhos auditivos, alimentos para bebés, produtos de higiene. A pobreza não vem sozinha; chega sempre acompanhada.

Sandra Lopes sabe disso. Saiu de São Tomé com os quatro filhos, e em 2022 foi sinalizada para o Proinfância. Não é fácil gerir um part-time que lhe rende 400 euros por mês e, sozinha, tentar que os miúdos não desertem da escola. O programa deu explicações, arranjou vagas nas refeições escolares, pagou actividades — a dança, por exemplo, que a mais velha adora. Mas o que verdadeiramente enternece Sandra é o miúdo. Nove anos, tropeçava nas letras, enrolava-se nas sílabas. A terapia da fala chegou, e hoje o puto lê. “Lê lindamente”, repete ela, com uma ponta de orgulho que quase se ouve ao telefone. “Ele já melhorou muito.”

Os territórios abrangidos são, na sua maioria, periferias densas e esquecidas. Almada, Amadora, Braga, Coimbra, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Porto, Seixal, Vila Nova de Gaia, Funchal, Ponta Delgada. Sítios onde a segregação habitacional e a precariedade laboral se cruzam e onde, muitas vezes, o Estado chega atrasado ou em bicos dos pés. Em 2025, o Proinfância injectou 2,1 milhões de euros no terreno e mobilizou 66 entidades sociais. Uma constelação de pequenas organizações que, nos interstícios do sistema, vão cosendo o que está roto.

Carlos Farinha Rodrigues, professor no ISEG e assessor científico do programa, tem repetido que a pobreza infantil não é apenas um défice de rendimento. É também isolamento, falta de expectativas, ausência de redes. “O programa parte do princípio de que a falta de recursos é determinante, mas é muito mais do que isso”, explicou recentemente. Para ele, a resposta às 300 mil crianças que ainda vivem abaixo do limiar da pobreza em Portugal não pode ser só política pública — embora devesse ser, sobretudo. Iniciativas como o Proinfância, diz, “atenuam condições de vulnerabilidade e reduzem a pobreza”. Mas não a erradicam sozinhas. E esse é o nó.

Em 2026, a Fundação “la Caixa” quer alargar a cobertura. Dez novas redes deverão entrar em funcionamento, algumas em freguesias já abrangidas, outras em municípios até agora de fora. O objectivo declarado é ambicioso: garantir que nenhuma criança fique refém do sítio onde nasceu. Sandra Lopes, entretanto, vai tentando equilibrar as contas. Quatrocentos euros não chegam para tudo. Mas chegam para mais, desde que haja quem estenda a mão.

NR/HN/Lusa

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