Quase 40% dos portugueses já recorrem à Inteligência Artificial para dúvidas de saúde

13 de Fevereiro 2026

A tecnologia infiltrou-se de vez nos hábitos de saúde dos portugueses. Mais de um terço já perguntou a ferramentas de Inteligência Artificial sobre sintomas ou tratamentos. São 37,6% os que usam a IA para esclarecimentos, número que sobe a 62,6% entre os 18 e os 24 anos. A segunda edição do Estudo Nacional de Saúde, da Marktest para a Medicare, revela ainda que 82% dos adultos entre os 18 e os 64 anos já usaram internet ou dispositivos digitais para gerir consultas, monitorizar o corpo ou tentar perceber o que se passa consigo

A fatia dos que fogem destas ferramentas é residual. Apenas 9,5% da população afirma não recorrer à internet para tratar de saúde, e o motivo é invariável: falta de confiança. Não confiam nos dados, nos algoritmos, ou talvez no que os ecrãs lhes devolvem sobre o próprio corpo.

Os números, porém, falam de uma adesão que não dá sinais de abrandar. Mais de metade dos inquiridos (54,1%) usa a tecnologia para agendar consultas, um hábito que já parece tão banal quanto levantar o multibanco. Mas o que salta aos olhos, para quem analisa o estudo, é o peso do autodiagnóstico. São 39,2% os que admitem pesquisar sintomas e tentar adivinhar a doença antes de sequer marcar o médico. O comportamento acentua-se entre os 35 e os 44 anos e nas classes sociais mais altas, como se o acesso a mais informação também trouxesse consigo a tentação de ser o próprio médico.

Há ainda quem vá mais longe. 26,6% monitoriza a saúde com aparelhos no pulso, que medem passos, batimentos, oxigénio no sangue. Aplicações de bem-estar, workshops educativos, teleconsultas e conselhos de nutrição integram o cardápio digital de uma população que parece cada vez menos disposta a esperar.

As redes sociais, essas, são território fértil para a saúde. 35,1% dos portugueses informam-se por ali, sobretudo as mulheres (41%) e os jovens adultos dos 18 aos 24 anos, que ultrapassam a fasquia dos 50,7%. É o mesmo grupo etário que mais usa IA para questões de saúde, mas também o que mais desconfia dela como ferramenta de diagnóstico: 36,3% dos mais jovens dizem não acreditar que a inteligência artificial seja fiável nessa tarefa nos próximos dois anos.

O paradoxo não escapa a quem trabalha na área. Filipe Freitas Pinto, médico especialista em Saúde Digital, lembra que a tecnologia não pode ser vista como uma substituição. “A inteligência artificial abre uma nova era na forma como se faz medicina e tem um potencial transformador sem precedentes”, afirma. “Para que esse potencial possa ser explorado, é essencial que a IA seja um aliado, não um substituto, do acompanhamento médico.” A declaração chega num momento em que 32,1% dos portugueses acreditam que, dentro de dois anos, a IA será capaz de diagnosticar com fiabilidade. São sobretudo os homens (37,2%) e as classes A/B (37,7%) que sustentam essa confiança.

O estudo não se detém, contudo, numa visão triunfalista. A integração da IA no Serviço Nacional de Saúde e na prática clínica quotidiana arrasta consigo perguntas para as quais ainda não há resposta definitiva. Quem responde por um erro de diagnóstico cometido por um algoritmo? Até que ponto se pode delegar a relação clínica a uma máquina? Os portugueses, ao que tudo indica, estão a testar essas fronteiras por conta própria, no silêncio do quarto ou no ecrã do telemóvel, antes mesmo de o médico lhes tocar.

PR/HN/MM

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