Tailândia imuniza elefantes com contracetivo para travar conflito com humanos

14 de Fevereiro 2026

A Tailândia iniciou a administração de uma vacina anticoncecional em elefantes selvagens para reduzir confrontos com populações humanas, numa altura em que a expansão agrícola sobre as florestas agrava a disputa por território e alimentos. A medida, aplicada após dois anos de ensaios, visa conter a natalidade em áreas críticas, onde os incidentes mortais e os danos em culturas aumentaram

Os números oficiais relativos a 2025 dão conta de 30 mortes e 29 feridos provocados por paquidermes, além de mais de dois mil registos de plantações destruídas. Os dados, que as autoridades não contestam, ilustram uma pressão crescente exercida por uma população estimada em 4400 elefantes selvagens, dos quais perto de 800 se concentram em zonas de elevada tensão. Foi precisamente nestas regiões, onde a taxa de natalidade atinge os 8,2% — mais do dobro da média nacional —, que o departamento de vida selvagem decidiu intervir.

Sukhee Boonsang, diretor do Gabinete de Conservação da Vida Selvagem, explicou que a opção pela contraceção não foi tomada de ânimo leve. Em entrevista à Associated Press, o responsável salientou que a vacina, importada dos Estados Unidos, não bloqueia a ovulação, mas impede a fertilização do óvulo. Um ensaio realizado ao longo de dois anos em sete elefantes domesticados consumiu outras tantas doses e convenceu os técnicos da eficácia do método. A 27 de janeiro, três fêmeas selvagens na província de Trat, leste do país, receberam a primeira administração.

O efeito da vacina prolonga-se por sete anos, findos os quais a fêmea pode voltar a reproduzir-se se não houver reforço. Os exemplares agora intervencionados serão seguidos de perto pelos especialistas durante todo esse período. Restam quinze doses por aplicar, estando ainda por definir as próximas áreas de atuação.

A iniciativa não escapa à polémica. Organizações ligadas à proteção animal manifestaram reservas, receando que o programa possa comprometer décadas de trabalho na conservação da espécie, cujo estatuto simbólico na Tailândia foi oficialmente consagrado. Boonsang contrapõe que a medida se restringe a territórios onde o conflito atingiu níveis insustentáveis. “Se nada for feito, o impacto sobre as comunidades locais continuará a crescer até se tornar incontrolável”, afirmou.

Paralelamente à vacinação, o governo tailandês tem apostado noutras frentes. A criação de pontos de água e alimentação dentro das áreas florestais, a construção de cercas de proteção e a atuação de guardas destacados para reconduzir os animais à natureza integram um pacote mais vasto de medidas. Nem todas, porém, têm corrido sem sobressaltos.

No início do mês, uma operação judicial de realojamento de elefantes na província de Khon Kaen, nordeste do país, terminou com a morte de um dos animais. A autópsia preliminar indicou asfixia durante a administração de anestesia, o que desencadeou protestos. O episódio veio lembrar que, mesmo quando a intenção é proteger, o desfecho nem sempre é o desejado.

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