Alucinações explicadas: como os psicadélicos ligam a memória à visão

14 de Fevereiro 2026

Uma equipa internacional, com participação alemã, observou em tempo real o que acontece no cérebro de murganhos sob efeito de psicadélicos. Os resultados, publicados esta semana, mostram que as alucinações surgem quando o cérebro, privado de informação visual do exterior, preenche as lacunas com fragmentos de memória

O uso controlado de substâncias psicadélicas para tratar a ansiedade e a depressão tem vindo a ganhar terreno na comunidade científica. O que continua por descodificar, com precisão, é o mecanismo neurológico por detrás dos efeitos destas substâncias na perceção. Um estudo publicado esta semana na Communications Biology vem lançar luz sobre o fenómeno, recorrendo a imagens de alta resolução da atividade cerebral. O trabalho é assinado por investigadores da Universidade de Hong Kong Baptist, da Universidade de Ruhr em Bochum e de instituições de Singapura.

A investigação partiu de um dado já conhecido: os psicadélicos têm uma afinidade particular com o recetor de serotonina 2A. No cérebro, este recetor tem uma ação supressora nas áreas dedicadas à visão. “Observámos que a informação visual vinda do exterior se torna menos acessível à nossa consciência”, explica Callum White, primeiro autor do estudo. Perante este bloqueio, o cérebro não fica simplesmente às escuras. Para colmatar a ausência de estímulos, recorre a material já armazenado. “É o cérebro que insere fragmentos da memória – é isso que alucinamos.”

A equipa conseguiu visualizar, em murganhos geneticamente modificados, como este processo se desenrola. Os animais expressavam proteínas fluorescentes em células nervosas específicas, permitindo aos cientistas rastrear, em tempo real, a comunicação entre diferentes regiões do córtex. O que viram foi um aumento de oscilações de baixa frequência (5 Hz) nas áreas visuais após a administração da substância. Estas ondas de atividade funcionam como um sinal que ativa o córtex retrosplenial, uma região central para o acesso à informação armazenada. O cérebro transita, assim, para um modo de funcionamento em que a perceção é gerada internamente. Dirk Jancke, que liderou o estudo, descreve o estado como “uma espécie de sonho parcial”.

O recurso a murganhos transgénicos, desenvolvidos no laboratório de Thomas Knöpfel, foi determinante. A fluorescência permitiu aos investigadores isolar os sinais exatos das células piramidais das camadas corticais 2/3 e 5, sabendo com certeza que eram essas as responsáveis pelos dados recolhidos. É uma precisão que métodos indiretos, como a ressonância magnética, não permitem.

Os autores do estudo sublinham que estas descobertas podem ajudar a refinar abordagens terapêuticas. A ideia é que, sob supervisão médica, os psicadélicos possam induzir um estado cerebral transitório que facilite o acesso a memórias positivas. Isso permitiria reestruturar padrões de pensamento negativos, aprendidos e consolidados em doenças como a depressão. “Será empolgante perceber como estas terapias poderão vir a ser personalizadas no futuro”, conclui Jancke. O trabalho contou com financiamento da Fundação Alemã de Investigação (DFG), integrando um programa dedicado ao estudo de redes neuronais monoaminérgicas.

Referências: https://news.rub.de/english/press-releases/2026-02-13-neuroscience-how-psychedelic-drugs-affect-brain; *Callum White, Munib Hasnain, Philipp Makolli, Robert J. Kittel, Thomas Knöpfel, Dirk Jancke. Serotonin 2A receptor-mediated suppression of visual cortical dynamics and induction of hallucinations. Communications Biology, 2026*

NR/HN/AlphaGalileo

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