Cabo Verde: novo coordenador do combate ao VIH aposta na erradicação até 2030

14 de Fevereiro 2026

A meta é ambiciosa, mas Adilson de Pina, que acaba de assumir a secretaria-executiva do Comité de Coordenação e Combate ao VIH/sida em Cabo Verde, acredita ser possível erradicar o vírus do arquipélago nos próximos quatro anos. Em entrevista à Lusa, o biólogo e doutorado em saúde pública traça as linhas de uma missão que herda de Celina Ferreira, agora aposentada, e que se alinha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

O novo secretário executivo do Comité de Coordenação e Combate ao VIH/sida em Cabo Verde está convicto de que o país pode, sim, alcançar a meta internacional de erradicação do vírus até 2030. Adilson de Pina, que conhece a instituição por dentro, sucede a Celina Ferreira e assume o cargo num momento em que o arquipélago regista uma prevalência baixa, de 0,6%, e mantém uma rede de prevenção, diagnóstico e tratamento gratuitos espalhada por todas as ilhas. “Certamente, Cabo Verde está num bom caminho para chegar a 2030 e contribuir para a redução da doença a nível global”, afirmou.

Biólogo de formação, com doutoramento em saúde pública, Pina não se limita aos números e às políticas. Prefere mostrar o trabalho no terreno. Numa manhã na cidade da Praia, deslocou-se ao centro de saúde de Achada Santo António, na periferia da capital, para dar a ver como funcionam, na prática, os cuidados primários integrados. Ali, quem procura informação, um teste ou o tratamento contínuo — essencial para manter a carga viral indetetável e, assim, quebrar cadeias de transmissão — é acolhido sem alarde, num ambiente que os profissionais garantem ser de total confidencialidade. O VIH, insistem, é tratado como qualquer outra condição crónica.

No primeiro andar, Madalena Monteiro, psicóloga da unidade, recebe diariamente pessoas que acabam de saber o diagnóstico. “A primeira fase é complicada”, admite, ao descrever o peso do estigma que ainda persiste. Muitos chegam ali associando o vírus à morte. “O nosso trabalho é este, mostrar que, neste momento, a ciência evoluiu de tal maneira que podemos acabar com o tabu e a vida continua”, explicou.

Adilson de Pina realça que a evolução científica traz ferramentas novas e que Cabo Verde tem procurado acompanhar essas inovações. Menciona, por exemplo, “um injetável bianual, lançado em 2025: a cada seis meses a pessoa faz o tratamento” para controlar a carga viral. Acredita que, com estas opções e a capilaridade dos serviços, “é possível” atingir a meta. Mas faz questão de ressalvar que o sucesso não depende apenas do Estado. “Não depende apenas das políticas do Governo, depende muito da sensibilidade da população e é este o desafio maior. Criar um certo contrato com a população seropositiva de que devemos seguir as regras”, afirmou, referindo-se à necessidade de adesão aos tratamentos e de não descuidar a prevenção.

Ao comité que agora dirige compete assegurar que os mecanismos de diagnóstico e o tratamento nunca faltem no país. Isso implica manter uma equipa multidisciplinar capaz de fazer o seguimento dos casos e de garantir a ligação aos parceiros internacionais, num contexto global que se tem revelado adverso. “Temos conseguido garantir tudo isso, apesar do cenário global em que há reduções de financiamentos e de parcerias. Mas trabalhamos com os recursos existentes e procuramos oportunidades para conseguirmos garantir os ganhos já alcançados e dar a continuidade ao trabalho”, assinalou.

Um dos obstáculos, reconhece, é encontrar pessoal especializado para lidar com as exigências da cooperação internacional. A mobilidade global leva muitos cabo-verdianos para fora e o arquipélago acaba por sentir a falta de quadros. Pina espera que o Estado possa criar atrativos para reter esses talentos, nomeadamente através de um plano de carreiras, como já se fez noutras áreas da saúde.

Há, porém, conquistas à vista. Ainda este ano, Cabo Verde espera avançar com o processo de certificação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) do fim da transmissão vertical do VIH — a passagem do vírus da mãe para o filho durante a gravidez, parto ou amamentação. O pedido já foi formalizado e um relatório global, a abranger os últimos cinco a dez anos, está em fase de finalização. Depois da análise por um comité independente da OMS, caberá à organização decidir se as provas são suficientes para certificar o país. “Na nossa região africana, Cabo Verde poderá ser um dos primeiros” a receber esta distinção, afirmou Adilson de Pina, recordando que o país já conseguiu certificações semelhantes para a eliminação da malária, rubéola, sarampo e outras doenças preveníveis por vacinas. “São ganhos que demonstram uma certa qualidade do sistema de saúde a nível nacional”, concluiu.

O trabalho do comité passa também por dirigir a atenção para grupos onde o VIH ainda apresenta prevalências mais elevadas: entre as pessoas com deficiência, o número sobe para 2,3%, entre as trabalhadoras do sexo atinge os 3,9%, na população toxicodependente regista-se 3,1% e entre homens que fazem sexo com outros homens a taxa chega aos 9,5%. A estas vulnerabilidades acresce, ainda, a histórica vulnerabilidade biológica e socioeconómica das mulheres, uma realidade que o novo secretário executivo sabe não poder ser ignorada.

NR/HN/Lusa

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