Ciberataques e risco de crise financeira no topo das preocupações das empresas portuguesas

14 de Fevereiro 2026

A segunda edição do Barómetro do Risco Geopolítico para Empresas, do Observatório da Porto Business School, volta a colocar a geopolítica no centro das atenções dos gestores. Ciberataques de grande dimensão, inseridos numa lógica de ameaça híbrida, e o espectro de uma nova crise financeira surgem como os principais receios para o tecido empresarial nacional, tanto no curto como no médio prazo. A disrupção das cadeias de abastecimento surge agora em terceiro lugar

A segunda edição do Barómetro do Risco Geopolítico para Empresas, elaborado pelo Observatório da Porto Business School (PBS), revela um empresariado nacional crescentemente atento às tensões internacionais e ao seu impacto nos negócios. O estudo, que inquiriu 330 executivos de empresas com operação em Portugal, coloca os ciberataques de grande dimensão no topo das apreensões, interpretando-os como uma manifestação clara de guerra híbrida com possível patrocínio estatal. 63% dos respondentes classificam este como um risco elevado, num cenário onde a linha que separa a criminalidade informática da ação geopolítica se torna turva.

A memória da crise financeira de 2007 parece ainda assombrar os decisores. O receio de que a instabilidade gerada pela competição entre potências possa desencadear um colapso semelhante é partilhado por 58% dos inquiridos, colocando este risco num expressivo segundo lugar. Jorge Rodrigues, co-coordenador do observatório, enquadra esta perceção: “Entramos num terreno familiar de um risco cíclico, que é agravado pela identificação de que a geopolítica pode desencadear ou agravar uma crise financeira, gerando perda de confiança nos mercados e choques económicos que afetam investimentos e crescimento.”

Em terceiro lugar, e a subir em relação à edição anterior, surge a disrupção das cadeias de abastecimento, uma preocupação naturalmente intensificada pela nova administração norte-americana e pelo chamado “Efeito Trump”. Curiosamente, os conflitos comerciais entre EUA, China e UE desceram para a quinta posição. Para Jorge Rodrigues, esta desvalorização relativa pode dever-se a uma certa ideia de que “Trump Always Chickens Out” (TACO) – isto é, que acaba sempre por recuar –, aliada à ação mitigadora da União Europeia. “Resta saber se será assim futuramente, sobretudo em riscos mais complexos como o programa nuclear do Irão ou a crise de Taiwan”, questiona.

O barómetro aponta ainda para aquilo que podem ser riscos subavaliados. A negação do acesso a tecnologia, num contexto de forte competição geoeconómica sino-americana, surge apenas em oitavo e sexto lugares, enquanto a desinformação gerada por inteligência artificial fica-se pela nona posição. No extremo oposto das preocupações, ainda que com menor peso relativo, figuram cenários como explosões nucleares ou biológicas, radicalização e migrações.

A análise setorial traz nuances interessantes. Entre as empresas importadoras e exportadoras, a disrupção logística dispara para os 72% de receio, integrando o top três com ciberataques e crise financeira, e fazendo sair os conflitos comerciais do pódio. Já na indústria transformadora, a desorganização das cadeias de abastecimento é a principal dor de cabeça, seguida de ciberataques e dos conflitos na Europa. No setor financeiro e segurador, ganham relevo as questões energéticas. Em contraponto, as organizações com investimento direto no estrangeiro não colocam a disrupção logística entre os seus três maiores riscos a três anos.

Perante este panorama, as empresas não parecem dispostas a esperar passivamente por soluções externas. As estratégias de mitigação passam maioritariamente por parcerias estratégicas (44%), tratados multilaterais (42%) e pelo reforço da capacidade interna de investigação e desenvolvimento (40%). “O recurso à I&D revela que o setor pretende aumentar as suas competências endógenas e não ficar apenas à espera do Estado”, sublinha Jorge Rodrigues, notando alguma contradição entre a aposta em tratados internacionais e o atual afastamento global da multilateralidade.

Paralelamente, e como reflexo desta crescente procura de conhecimento na área, a Porto Business School prepara o arranque da 8.ª edição do programa executivo “Risco Geopolítico e Estratégia para Executivos”, desenvolvido em parceria com o Instituto da Defesa Nacional. As candidaturas estão abertas até 2 de março para a formação que começa no dia 5.

https://www.pbs.up.pt/programas/open-executive-program/risco-geopolitico-e-estrategia-para-executivos/

A segunda edição do barómetro inquiriu executivos de empresas baseadas em Portugal entre 8 e 20 de dezembro de 2025, considerando 330 inquéritos válidos após tratamento. A amostra abrange uma análise setorial que inclui indústria transformadora, empresas exportadoras e importadoras, oferecendo uma visão alargada sobre a perceção do risco e as estratégias de mitigação adotadas.

PR/HN/MM07

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