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A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) escolheu a véspera do Dia Mundial da Doença Coronária para lançar um aviso que, lá está, não é propriamente novo mas nunca é demais repetir: a relação entre diabetes e problemas do coração é mais estreita do que muitas vezes se julga, e tratá-las como realidades estanques nos serviços de saúde só agrava o problema. O comunicado, divulgado esta sexta-feira, sublinha a urgência de uma abordagem integrada, que encare a chamada dupla ameaça como o que ela é — um desafio que não se resolve com medidas avulsas.
João Filipe Raposo, diretor clínico da APDP e futuro presidente da Federação Internacional de Diabetes para a Europa (IDF Europa, no original), esteve há dias no Parlamento Europeu a lembrar o óbvio que tantas vezes se ignora: a diabetes e a obesidade pesam de mais nas contas da saúde e na vida das pessoas. E, já agora, deixou um recado aos decisores políticos: há oportunidades, como o tal “Safe Hearts Plan”, que não se podem desperdiçar. É por aí, diz, que se pode fazer qualquer coisa em termos de prevenção e de cuidados mais certeiros.
Por sinal, a APDP decidiu apoiar duas iniciativas que vão no mesmo sentido. Uma é o projeto “Pulsar Portugal”, que juntou a Sociedade Portuguesa de Diabetologia e a Sociedade Portuguesa de Cardiologia para perceber, de uma vez por todas, como anda a saúde metabólica e cardiovascular dos portugueses. A outra é a petição que a Sociedade Portuguesa de Cardiologia lançou esta semana, a pedir que os medicamentos agonistas do recetor GLP-1 cheguem a quem precisa deles para prevenir o risco cardiovascular, sobretudo em pessoas com obesidade.
“A diabetes e as doenças cardiovasculares, incluindo a doença coronária, partilham uma ligação perigosa que não pode ser ignorada”, sustenta João Filipe Raposo. E acrescenta, num tom que não esconde alguma frustração, que “precisamos de estratégias de saúde pública que não tratem estas condições de forma isolada, mas que reconheçam a sua sobreposição.” Palavras que encontram eco nos números: as doenças do coração continuam a ser a primeira causa de morte em Portugal, e a diabetes, com uma das taxas de prevalência mais altas da Europa segundo a IDF, multiplica o risco de eventos cardiovasculares.
José Manuel Boavida, presidente da APDP, não tem dúvidas: “Encarar a diabetes como um fator de risco major para as doenças do coração é o primeiro passo para uma estratégia de prevenção eficaz.” Na sua opinião, a luta contra estas patologias crónicas devia estar no topo das prioridades nacionais. “Acreditamos que, trabalhando em conjunto com as autoridades de saúde, sociedades científicas e outros parceiros, podemos reverter as estatísticas preocupantes e melhorar significativamente a saúde e o bem-estar dos portugueses.” E remata, com a disponibilidade de quem conhece o terreno: “Estamos disponíveis para contribuir ativamente para a construção de soluções sustentáveis.”
Vale a pena lembrar que a Federação Internacional de Diabetes coloca Portugal numa posição incómoda quando se fala em prevalência da doença. E esta, como se sabe, não vem sozinha: o risco de enfarte do miocárdio, de acidente vascular cerebral ou de angina de peito é substancialmente mais alto em quem tem diabetes. Daí que a APDP insista, neste dia 14 de fevereiro, que o problema não é apenas do coração nem apenas do pâncreas — é do sistema de saúde no seu conjunto, desde a prevenção primária até ao acesso a terapêuticas que, está demonstrado, reduzem o risco cardiovascular.
Ora, a petição lançada esta semana pelos cardiologistas vem precisamente bater na tecla do acesso aos fármacos. E a APDP, ao subscrevê-la, junta-se ao coro dos que acham que não basta saber o que fazer — é preciso que as condições existam para o fazer. A petição pode ser assinada online e já recolheu algumas centenas de subscritores, mas os promotores esperam chegar mais longe.
Resta saber se o Dia Mundial da Doença Coronária, com o seu quê de efeméride quase romântica num dia de namorados, servirá para alguma coisa além dos comunicados de circunstância. A APDP acredita que sim, ou pelo menos age como se acreditasse: apela a uma reflexão séria e a políticas que, de uma vez, tratem a diabetes e o risco cardiovascular como as duas faces da mesma moeda que são.
PR/HN/MM



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