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O Departamento de Estado norte-americano justificou o envio como uma resposta às necessidades médicas críticas no país, com o objetivo de “reduzir doenças evitáveis e salvar vidas”. Em comunicado, a administração de Donald Trump sublinhou que os produtos clínicos agora entregues contribuirão para mitigar a pressão sobre hospitais e ambulatórios, embora não tenha detalhado o conteúdo exato das seis toneladas.
A encarregada de negócios dos EUA em Caracas, Laura Dogu, foi uma das faces visíveis da operação. Numa publicação nas redes sociais, acompanhada de imagens do avião de carga no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, Dogu escreveu: “Mais um dia produtivo aqui em Caracas! Hoje facilitamos a entrega de mais de 6.000 quilogramas de medicamentos para apoiar a recuperação do povo venezuelano.” Ao seu lado, nas fotografias divulgadas pelo canal estatal venezuelano, surgia o representante diplomático da Venezuela nos EUA, Félix Plasencia, num gesto que ambos os lados quiseram mostrar como sinal de cooperação. A televisão pública local agradeceu o envio e adiantou que os materiais se destinam à rede de hospitais de ambulatório, há muito carenciada.
A chegada do material acontece menos de um mês depois de Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, ter anunciado o desbloqueamento de ativos venezuelanos nos EUA, na sequência de negociações diretas com a equipa de Trump. A 27 de janeiro, Rodríguez revelou que os fundos libertados permitiriam não só a aquisição de equipamento hospitalar, mas também investimentos na rede elétrica e na indústria do gás, dois setores estratégicos e em situação precária. O anúncio de hoje materializa, assim, a primeira consequência prática desse entendimento.
Horas antes de o avião aterrar em Caracas, Donald Trump manifestara, em declarações à imprensa, a intenção de visitar a Venezuela, sem adiantar datas. O presidente norte-americano não esconde o interesse em retomar a exploração dos recursos energéticos venezuelanos, sobretudo depois da incursão militar de janeiro que levou à captura de Nicolás Maduro. Ainda na quarta-feira, Washington autorizou cinco grandes petrolíferas a retomar ou expandir operações no país sob supervisão norte-americana: a britânica BP, a anglo-holandesa Shell, a italiana Eni, a espanhola Repsol e a norte-americana Chevron — esta última já operava com uma isenção. A decisão insere-se na suspensão gradual do embargo imposto em 2019, durante o primeiro mandato de Trump, e que ele próprio cancelara parcialmente ao regressar à Casa Branca, em janeiro de 2025, mantendo apenas a Chevron com licença.
Entretanto, Delcy Rodríguez tem mantido contactos com outras empresas. No início do mês, reuniu-se com representantes da Repsol e também com executivos da francesa Maurel&Prom, que não consta da lista agora divulgada por Washington. O movimento sugere que Caracas procura diversificar parcerias, mesmo num contexto de reabertura controlada.
A Venezuela continua a deter as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, acima dos 300 mil milhões de barris. Mas a produção diária não ultrapassa o milhão de barris, muito aquém do potencial, reflexo de décadas de subinvestimento que deixaram infraestruturas petrolíferas em estado degradado. O desafio de reabilitar a indústria é imenso, e a chegada de material médico, ainda que simbólica, é vista por analistas como um primeiro teste à capacidade de ambos os governos para traduzirem em acções concretas o recém-retomado diálogo.
NR/HN/Lusa



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