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A Administração Estatal para a Regulação do Mercado (SAMR) publicou um aviso, discreto na forma mas pesado no conteúdo, a convocar medidas extraordinárias. A partir de agora, os produtores de fórmulas lácteas para bebés não se limitarão a garantir a qualidade nutricional: terão de provar, lote a lote, que estão livres de uma toxina pouco conhecida do grande público, mas que já pôs a indústria internacional em alerta.
O comunicado, acessível no portal oficial do regulador, pede que as autoridades locais apertem a vigilância sobre a rastreabilidade das matérias-primas. Não se trata, asseguram os reguladores, de uma resposta a casos declarados dentro das fronteiras chinesas. Até agora, não há registo oficial de bebés intoxicados por cereulida no país. Ainda assim, a ordem é clara: que a Nestlé conclua rapidamente o repatriamento de lotes específicos que ainda estejam a ser vendidos na China.
A contaminação veio a público há dois meses, quando França iniciou recolhas após a morte de dois lactentes associada ao consumo de leite contaminado. O que começou como uma crise local alastrou-se por fronteiras, arrastando consigo nomes pesados como Danone, Lactalis e a própria Nestlé, além de Vitagermine, Granarolo e Hochdorf. O fio condutor das investigações levou a um ponto improvável: Wuhan.
As autoridades sanitárias francesas apontaram a origem da toxina em óleos vegetais enriquecidos com ácido araquidónico, um suplemento usado para aproximar o leite artificial do materno. O fornecedor do ingrediente será, segundo essas investigações, a Cabio Biotech Wuhan. A empresa, de acordo com a agência Bloomberg, conseguiu furar o duopólio que durante anos pertenceu à holandesa DSM-Firmenich e à norte-americana Martek, tornando-se num dos maiores produtores mundiais do componente. Consta da sua carteira de clientes não só a Nestlé e a Danone, como também pesos pesados domésticos: a Feihe e a Junlebao Dairy.
Esta ligação a marcas nacionais torna a crise particularmente incómoda. Na memória dos consumidores chineses, o tema do leite em pó não é uma página virada, mas uma ferida mal sarada. O escândalo da melamina, em 2008, deixou seis mortos e envenenou perto de 300 mil crianças, numa das maiores crises sanitárias da história recente do país. Muitos pais, desde então, recusam-se a comprar fórmulas produzidas na China, preferindo carregamentos da Europa ou da Australásia, mesmo a preços mais elevados. Agora, a ideia de que um ingrediente crítico parte de solo chinês e contamina cadeias globais, incluindo as que servem o mercado doméstico, reativa inquietações que Pequim julgava ter controlado à força de regulamentos apertados. A ordem para testar a toxina pode ser vista como uma tentativa de travar, antes que se agrave, mais uma fratura na confiança.
NR/HN/Lusa



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