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“Não podemos querer mudar as culturas de um momento para o outro, não é por decreto que se retiram hábitos de vida, hábitos de saúde, ainda que sejam mitos, ainda que sejam nefastos”, afirmou, em declarações telefónicas a partir do país, a docente da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC). A professora integrou uma missão de 15 dias a convite da OMS, onde, a par da colega Ana-Bela Caetano, formou 33 profissionais do Hospital Nacional Simão Mendes — entre médicos, enfermeiros e parteiras — e sete docentes da Escola Nacional de Saúde da Guiné-Bissau.
Manuela Frederico Ferreira salientou que a intervenção em saúde num país onde a medicina tradicional detém um peso cultural significativo deve assentar numa abordagem centrada na pessoa. “Para nós prestarmos cuidados centrados na pessoa temos que ter o conhecimento científico, mas temos que o prestar de forma humanizada”, sublinhou, defendendo que a estratégia passa por “irmos por cada pessoa e envolver pessoas influentes da comunidade”.
A professora traçou um retrato preocupante do setor na Guiné-Bissau, descrevendo um “país muito vulnerável, com uma população relativamente jovem, com mais de 60% que tem idade até aos 24 anos, com cerca de 51% do sexo feminino”. A taxa de mortalidade materna é “das mais elevadas do mundo”, associada a hemorragias pós-parto, eclâmpsia, pré-eclâmpsia, sépsis e “uma taxa de aborto bastante elevada”. A estes problemas juntam-se constrangimentos estruturais como os “pagamentos diretos que os utentes têm de fazer” em situações como cesarianas, em que custeiam o material necessário, e as dificuldades de acesso face à distância dos serviços de saúde.
Durante a primeira semana da missão, financiada pela OMS, o trabalho incidiu na formação dos docentes da Escola Nacional de Saúde e na análise das recomendações de uma avaliação do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) ao currículo da licenciatura em Enfermagem, formalmente aprovado no final de 2023. “Foi no sentido dessas recomendações que nós tivemos a fazer a formação aos sete professores”, explicou, referindo que o esforço se concentrou na harmonização curricular, definição de objetivos de aprendizagem, metodologias e instrumentos de avaliação. A equipa dedicou-se ainda à requalificação da biblioteca, agora também na sua vertente online. “Não chega ter os computadores para ter uma biblioteca online”, alertou.
A segunda semana, que terminou esta quinta-feira, foi preenchida com formação em enfermagem obstétrica e saúde sexual e reprodutiva. Os conteúdos abordaram “atualização em cuidados pré-natais e rastreios, questões contracetivos e planeamento familiar, gravidez precoce, casamento infantil, violência, questões de género, parto e pós-parto, humanização, ética, comunicação”, detalhou a professora.
A ESEUC mantém desde 2017 um protocolo com a Escola Nacional de Saúde da Guiné-Bissau para apoiar a formação de profissionais de saúde guineenses, incluindo a conceção e implementação de planos de estudo de cursos de complemento de formação, licenciatura, especialização e pós-graduação.
Nota da redação:A delegação da agência Lusa na Guiné-Bissau está suspensa desde agosto após a expulsão pelo Governo dos representantes dos órgãos de comunicação social portugueses. A cobertura está a ser assegurada à distância
NE/HN/Lusa



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