Violência na idade adulta agrava doenças hepáticas, renais e mentais – estudo do Porto

14 de Fevereiro 2026

Sobreviventes de violência interpessoal na vida adulta revelam maior propensão para doenças autoimunes, insuficiência renal, fígado gordo e patologias cardíacas prematuras, além de perturbações do sono e do comportamento alimentar, indica um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto hoje divulgado. A investigação, que acompanhou mais de 154 mil utentes da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, conclui que os efeitos físicos e psicológicos perduram e oneram o sistema de saúde

Publicado na revista JMIR Public Health and Surveillance, o trabalho coordenado pela médica legista Teresa Magalhães analisou registos clínicos compreendidos entre janeiro de 2008 e maio de 2024. Da amostra, 36.835 doentes – todos entre os 18 e os 50 anos – apresentavam indicações de terem sofrido abuso físico, psicológico ou sexual, ou ainda situações de ameaça, humilhação ou perseguição. Os investigadores cruzaram esses indícios com os históricos de morbilidade. E a correlação mostrou-se expressiva: as vítimas acumulam diagnósticos de colesterol elevado, asma e dor crónica com maior frequência que o resto da população. Consomem mais psicofármacos. Registam também abuso de álcool e de estupefacientes.

“Quando se compara com a população em geral, os adultos que presumivelmente sofrem atos de violência por outros adultos apresentam mais doenças somáticas, mais perturbações mentais e mais comportamentos de risco para a saúde”, sintetiza o resumo da investigação. A equipa salienta, porém, que os números podem ficar aquém da realidade. Há casos omitidos por receio, vergonha ou mesmo por falhas na codificação clínica.

Teresa Magalhães, que também integra o RISE-Health, insiste que o fenómeno não pode continuar confinado aos tribunais. “A violência interpessoal não pode ser vista apenas como um tema de justiça criminal. É urgente abordar este problema endémico na sociedade”, declarou à Lusa. Na opinião da professora, os profissionais de saúde estão numa posição ímpar para traçar um diagnóstico precoce, desde que habilitados a reconhecer os sinais indiretos. “Rastrear a violência será uma estratégia custo-efetiva”, sublinha.

O estudo enumera ainda barreiras que dificultam a atuação médica. Além do segredo profissional, pesam a hesitação das vítimas – o medo de não serem levadas a sério, a vergonha, o receio de represálias pelo agressor. Situações que, na perspetiva dos autores, contribuem para a subnotificação e atrasam intervenções que poderiam travar o agravamento clínico.

Para além de Teresa Magalhães, assinam o artigo Rui Barbosa, Tiago Taveira Gomes, ambos da FMUP e do laboratório associado RISE-Health, Rita Lopes, da MTG Research and Development Lab, e Carla Ponte, da Unidade de Saúde Familiar Porta do Sol. O grupo pretende agora alargar o rastreio a outras regiões do país e estabelecer parcerias com equipas estrangeiras. A ideia é perceber se o padrão se repete fora do contexto metropolitano do Porto e que especificidades pode assumir.

NR/HN/Lusa

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