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A Avenida da Liberdade continua a ser o local mais poluído do país no que toca a dióxido de azoto. Em 2025, a média anual fixou-se nos 40,3 microgramas por metro cúbico. O limite em vigor é 40. A associação Zero, que esta sexta-feira divulga uma análise aos dados provisórios da CCDR Lisboa e Vale do Tejo, não celebra: “Cumpre à risca por arredondamento”, lê-se no comunicado. E o alívio, acrescenta a organização, deveu-se sobretudo ao vento e à chuva, não a políticas estruturais.
A diferença entre 2024 e 2025 foi de 2,7 microgramas negativos. A Zero desconfia das condições meteorológicas, mais favoráveis à dispersão de poluentes, e aponta também a renovação da frota. Mas sublinha que, mesmo assim, o valor registado é quatro vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde. A OMS quer 10 μg/m3. A legislação europeia, a partir de 2030, fixa os 20. Na Avenida, isso significa reduzir para metade a atual concentração.
Em Entrecampos, os níveis chegaram aos 32 μg/m3. Em Benfica, aos 27. Nenhum dos locais de tráfego analisados cumpriria os futuros limites. A Zero lembra que o dióxido de azoto não é apenas um número: irrita as vias respiratórias, agrava asmas, doenças cardíacas e infeções. A mortalidade prematura é a face mais visível. A Agência Europeia do Ambiente contou, em 2023, 279 mil mortes prematuras no continente. Em Portugal, estimam-se 4.200 por ano. Doze por dia. A associação recorda que a poluição do ar já mata mais que o tabaco.
A Zona de Emissões Reduzidas de Lisboa, que abrange a Avenida da Liberdade, é considerada pela Zero “irrelevante”. Sem atualizações na última década e sem fiscalização, nota a organização, o espaço público continua desenhado para o automóvel: oito vias, seis centrais e duas laterais. Sem ciclovia contínua, sem segurança para quem pedala. Um modelo “antiquado”, descrevem, e incompatível com qualquer objetivo climático sério.
A proposta é clara: travar o tráfego de atravessamento na Baixa pombalina e na própria Avenida. A Zero defende uma Zona de Acesso Condicionado Zero Emissões, que impeça progressivamente a circulação de veículos privados, com exceção de moradores. Quer mais corredores dedicados a transportes públicos, ligados à rede ferroviária e ao metropolitano. E pede ainda restrições ao estacionamento para não residentes, eletrificação do transporte coletivo e de mercadorias, e prioridade absoluta à mobilidade ativa — a pé ou de bicicleta.
A Câmara de Lisboa é instada a envolver as organizações ambientalistas na revisão do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável. A Zero insiste que o documento tem de ser coerente com as metas metropolitanas e nacionais. E lembra o compromisso da neutralidade carbónica até 2030. Sem redução do tráfego rodoviário, diz, Lisboa não lá chega. E os doze por dia continuarão a morrer.
NR/HN/Lusa



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