Peso a mais pode ameaçar a visão dos cães, revela estudo

15 de Fevereiro 2026

Uma investigação da Universidade Hebraica de Jerusalém estabelece uma ligação direta entre o excesso de peso canino e o aumento da pressão intraocular, um dos principais fatores de risco para o glaucoma, doença que pode conduzir à cegueira. Os resultados indicam que, por cada ponto ganho na escala de condição corporal, a pressão ocular sobe, em média, 1,9 mmHg

A relação entre a obesidade e problemas de saúde em cães é conhecida dos médicos veterinários, estando associada a patologias como a resistência à insulina, a diabetes mellitus, estados inflamatórios crónicos e doenças ortopédicas. Agora, um trabalho liderado por Oren Pe’er, da Koret School of Veterinary Medicine, acrescenta um novo e preocupante elemento a esta lista: a saúde ocular. A equipa de investigadores procurou perceber se o peso corporal extra teria implicações diretas na pressão dentro do olho, um parâmetro crítico para o desenvolvimento do glaucoma.

Para o estudo, foram observados 40 cães saudáveis, com diferentes silhuetas, desde magros a obesos. A avaliação da condição física não se ficou pela balança: os cientistas recorreram a uma escala de condição corporal de nove pontos e a uma adaptação canina do índice de massa corporal. Os resultados, entretanto publicados, revelaram diferenças significativas. Enquanto os cães magros apresentavam uma pressão intraocular média de 13,7 mmHg, os animais com excesso de peso ou obesos registavam uma média de 20,3 mmHg. Ainda que ambos os valores se situem dentro do intervalo considerado normal, que vai até aos 25 mmHg, a aproximação ao limiar superior nos cães mais pesados acende um sinal de alerta.

A análise dos dados mostrou uma progressão quase aritmética: por cada aumento de um ponto na escala de condição corporal, a pressão no interior do olho subia perto de dois pontos. De forma semelhante, uma subida de 10% no índice de massa corporal do animal traduziu-se num acréscimo de quase três unidades na pressão ocular. Numa escala de medição tão reduzida, uma variação desta magnitude é tudo menos negligenciável e evidencia como o estado físico pode influenciar diretamente a fisiologia ocular.

Os mecanismos por detrás deste fenómeno são, para já, matéria de especulação científica, mas os autores apontam algumas pistas. Uma das hipóteses prende-se com alterações mecânicas, como a acumulação de tecido adiposo à volta do olho ou o aumento da pressão venosa, que podem dificultar a drenagem do humor aquoso, o líquido intraocular. Outra possibilidade envolve as consequências metabólicas da obesidade. No estudo, os cães com excesso de peso apresentavam níveis mais elevados de triglicéridos e de leptina, uma hormona produzida pelas células de gordura. Ambos os fatores surgem associados a valores mais altos de pressão ocular nos dados iniciais da investigação.

«Uma condição corporal mais elevada em cães normais está significativamente associada a uma pressão intraocular mais alta», afirma Oren Pe’er. O investigador sublinha ainda que «a obesidade pode ser um fator de risco modificável em cães predispostos ao glaucoma». Esta ideia é particularmente relevante para raças com conhecida propensão para desenvolver a doença. A diferença de 6,6 mmHg registada entre os dois grupos de animais pode, nestes casos, representar um agravamento do risco e tornar-se um fator relevante para a preservação da visão a longo prazo.

Para os donos, a conclusão é clara: manter o peso do cão sob controle não é apenas uma questão de mobilidade ou de prevenção de doenças cardíacas. A gestão do peso assume-se também como uma medida de cuidado com a visão, ajudando a preservar a fisiologia ocular normal e a reduzir o risco de patologias oculares, sobretudo em animais que já carregam uma predisposição genética para problemas nos olhos.

Referências:

https://academic.oup.com/jvim/article/40/1/aalaf086/8467072
Journal of Veterinary Internal Medicine, Volume 40, Issue 1, janeiro/fevereiro de 2026.

NR/HN/AlphaGalileo

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MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior

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