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Passar quinze anos a construir robôs para missões espaciais no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA marca uma pessoa. Aprendemos que as máquinas são incansáveis, precisas, fazem o que lhes mandam. Mas a certa altura, Paolo Fiorini, investigador veterano, apercebeu-se de que o verdadeiro salto não estava na automatização, mas em casar a precisão das ferramentas com aquilo que só os humanos têm: a capacidade de decidir o que é importante, de se adaptar, de ter responsabilidade. Foi com essa bagagem que regressou a Itália em 2001 para fundar o laboratório ALTAIR em robótica médica na Universidade de Verona. O regresso, porém, trou-lhe uma desilusão. O mundo académico vivia de publicações que raramente chegavam aos doentes. “No início dos anos 2000, não havia robôs cirúrgicos, era tudo vanguarda e experimental”, lembra. “As empresas faziam a sua investigação e a nossa tecnologia ficava encalhada nas revistas científicas. Sem impacto real.”
Essa frustração germinou num projeto financiado pela União Europeia, o ROBIOSPY, que deu origem à spin-off de deep-tech Needle Robotics. A ideia é tão simples quanto ambiciosa: usar sistemas autónomos para mudar o diagnóstico e o tratamento do cancro da próstata. A doença é traiçoeira, de progressão lenta, a segunda mais diagnosticada em homens no mundo e a primeira em muitos países da UE, com mais de 335 mil novos casos anuais. Diz-se muitas vezes que os homens morrem com ela, e não dela, o que baralha a perceção pública. Mas a realidade é que, quando escapa ao controlo, mata: é a quinta causa de morte por cancro a nível global e a terceira nos cancros especificamente masculinos na Europa.
O problema começa no diagnóstico. Todos os anos, realizam-se cerca de três milhões de biópsias à próstata só na Europa e nos Estados Unidos. O método é manual, dependente da perícia de quem segura a agulha. O alvo é do tamanho de uma noz, muitas vezes quase invisível nas imagens de ressonância magnética. Erros de diagnóstico podem ultrapassar os 25%. O doente vai para casa aliviado, sem saber que um tumor minúsculo passou ao lado. Durante anos, a única cura definitiva foi a remoção total da glândula. Resolve o cancro, mas entre 5 a 20 por cento dos homens ficam com incontinência ou disfunção erétil a longo prazo. A alternativa é a vigilância ativa, com exames e biópsias anuais, uma angústia prolongada. Um estudo na BMJ mostrou que as taxas de incidência variam vinte vezes entre países da UE, mas a mortalidade só difere cinco vezes, sinal de sobrediagnóstico e tratamentos desnecessários. “Temos dois polos opostos, nada no meio”, diz Fiorini. “É uma área onde os limites naturais do julgamento humano criam inconsistências e onde a robótica pode fazer a diferença.”
Foi o que tentaram. Um primeiro protótipo para automatizar a biópsia foi bem recebido pelos médicos. Mas esbarrou na realidade financeira dos hospitais: não era sustentável. A lição serviu para perceber que o caminho não era aquele. “Nem sempre é a ideia inicial que vinga, mas a que pode ter impacto”, reflete. O ponto de viragem surgiu com uma bolsa Transition do Conselho Europeu de Inovação (EIC), que redirecionou o projeto para a terapia focal. Em vez de remover a próstata inteira, uma agulha guiada com precisão queima ou congela apenas o tumor. Preserva-se a qualidade de vida e o homem mantém-se sob vigilância. A precisão exigida é milimétrica e a robótica consegue colocar a agulha exatamente no mesmo ponto, sempre. “É essa a nossa vantagem”, afirma.
Em 2026, a equipa prepara testes de calibração em laboratório, seguindo-se ensaios em cadáveres, a derradeira etapa de segurança antes dos ensaios clínicos em doentes. Fiorini, agora reformado, graceja que as palestras que dá a jovens engenheiros deviam chamar-se “Da Investigação ao Produto – ou Como Arruinar uma Reforma Tranquila”. Mas não esconde o entusiasmo. O caminho, sabe, não é fácil. Falta financiamento, o talento em IA e robótica é escasso e caro, e os investidores nem sempre compreendem os tempos longos da deep-tech médica. “Com o chapéu de investigador, um atraso não é problema. Com o de empreendedor, um atraso por razões financeiras pode ser fatal.” Ainda assim, insiste: “A robótica tem tanto para oferecer à medicina. Só temos de encontrar o caminho certo para a tornar real.”
Fotografias: Robiosby project
Contactos:
Coordenador do projeto: APRE
Stefania De Santi, desanti@apre.it
Equipa de Comunicação: Fondazione ICONS
Cesar Giovanni Crisosto – cesar.crisosto@icons.it
Caterina Falcinelli – caterina.falcinelli@icons.it
Sítio web: https://deepsync.eu
LinkedIn: DEEPSYNC
Hiperligação para a história original: https://deepsync.eu/story/guided-by-humans-powered-by-ai-precision-together-in-prostate-cancer-care/
NR/HN/Lusa



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