Cancro gástrico precoce: Incidência declina 2,9% ao ano globalmente, mas desigualdades aumentam

16 de Fevereiro 2026

Um estudo global liderado pela Universidade de Medicina de Chongqing, na China, revela que, embora a mortalidade por cancro gástrico de início precoce (antes dos 50 anos) tenha diminuído 2,9% ao ano entre 1990 e 2021, as desigualdades entre regiões ricas e pobres acentuaram-se. Tabagismo e dieta rica em sal são os principais fatores de risco

Apesar da tendência global de queda na incidência do cancro gástrico, um tumor que continua a ser a quinta causa de morte por cancro em todo o mundo, os casos diagnosticados antes dos 50 anos – designados de early-onset gastric cancer (EOGC) – mantêm padrões biológicos e clínicos distintos. A forma difusa, o predomínio de células em anel de sinete e o prognóstico reservado são marcas destes tumores, cuja origem parece estar ligada a exposições ambientais e estilos de vida, como a infeção por Helicobacter pylori, o tabagismo ou o consumo excessivo de sal. Mas até agora faltava uma fotografia global e detalhada do fenómeno.

Uma equipa daquela universidade chinesa decidiu colmatar essa lacuna, recorrendo aos dados mais recentes do Global Burden of Disease (GBD) 2021. O trabalho, publicado esta semana na revista Cancer Biology & Medicine (DOI: 10.20892/j.issn.2095-3941.2025.0320), analisou 371 doenças em 204 países e territórios, utilizando modelação bayesiana e regressão joinpoint para estimar a evolução do cancro gástrico precoce ao longo de três décadas. Os números são expressivos: só em 2021 registaram-se cerca de 125 mil novos casos, 78 mil mortes e 3,86 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) atribuíveis à doença. O pico de incidência situou-se entre os 45 e os 49 anos, com os homens a apresentarem taxas mais elevadas, embora as mulheres com menos de 30 anos enfrentem um risco de mortalidade superior.

A análise revelou ainda um aparente paradoxo. Enquanto as taxas padronizadas por idade caíram globalmente, com descidas acentuadas na Ásia Oriental e na Europa, vários países da África subsariana registaram aumentos. E é aqui que as desigualdades se tornam mais evidentes: o declínio verificou-se sobretudo nas regiões de alto rendimento, onde o rastreio e a educação para a saúde permitiram reduzir a exposição aos fatores de risco. Já nas regiões de baixo rendimento, o acesso limitado aos cuidados de saúde e o crescimento populacional contribuíram para um agravamento da carga da doença.

O tabagismo e a dieta rica em sal surgem como os principais fatores de risco modificáveis, responsáveis por 7,1% e 7,7% dos DALYs, respetivamente. O impacto do tabaco foi particularmente pronunciado na Ásia Oriental e na Europa Central, onde representou mais de 10% dos anos de vida perdidos ajustados por incapacidade. Já o consumo excessivo de sal mostrou um efeito consistente em todas as geografias.

“O cancro gástrico de início precoce coloca-nos perante um desafio complexo, porque afeta indivíduos no auge da sua vida produtiva”, explica Wei Wang, autor correspondente do estudo e investigador na Universidade de Medicina de Chongqing. “Os nossos resultados mostram que medidas preventivas como o controlo do tabagismo, a redução do sal e a erradicação do Helicobacter pylori podem reduzir significativamente a carga da doença. No entanto, estas estratégias têm de ser adaptadas às realidades locais. Em contextos com poucos recursos, reforçar as infraestruturas de saúde e alargar o acesso ao rastreio são passos fundamentais para reduzir as disparidades.”

As projeções até 2040 apontam para uma continuação do declínio global, mas as desigualdades deverão manter-se. Os autores sublinham a necessidade de integrar mudanças no estilo de vida, deteção precoce e políticas de saúde pública adaptadas a cada região. Na Ásia Oriental, por exemplo, faz sentido apostar em intervenções dietéticas e no rastreio endoscópico precoce; nas regiões mais pobres, o investimento nos sistemas de saúde e em programas de literacia é prioritário. Medidas como a tributação do tabaco, a rotulagem dos alimentos e campanhas de redução do consumo de sal podem, acreditam os investigadores, ajudar a diminuir a exposição aos principais fatores de risco.

O estudo foi financiado pelo Chongqing Science and Health Joint Research Project in TCM (Grant No. 2024ZYDB002) e está disponível em acesso aberto na Cancer Biology & Medicine, uma revista indexada na Scopus, MEDLINE e SCI, com fator de impacto de 8,4.

Referência: Young adults still face rising gastric cancer disparities amid overall decline 16/02/2026 TranSpread
DOI: 10.20892/j.issn.2095-3941.2025.0320
URL: https://doi.org/10.20892/j.issn.2095-3941.2025.0320

NR/HN/AlphaGalileo

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