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O trabalho, suportado pelo Amsterdam Research Centre for Health Economics and Management (ARCHEM), cruzou dados clínicos da coorte ATHENA, gerida pela Stichting hiv monitoring (SHM), com os registos administrativos do Gabinete de Estatística neerlandês (Centraal Bureau voor de Statistiek). Os investigadores acompanharam 5.960 pessoas diagnosticadas com VIH entre 2010 e 2022 e compararam-nas com um grupo de controlo composto por 59.600 indivíduos sem o vírus, selecionados com base em características demográficas equivalentes.
Os números são expressivos. Para além da descida no emprego e na carga horária, o rendimento primário dos diagnosticados encolheu nove por cento. A conclusão mais saliente, porém, reside no agravamento da dependência de prestações sociais: a probabilidade de recorrer a seguros por invalidez ou a subsídios por doença dispara 46 por cento após a confirmação da seropositividade. Andrei Tuiu, investigador doutorando na UvA, na SHM e na Amsterdam School of Economics, sublinha que, até agora, “pouco se sabia sobre a forma como o VIH afeta a participação económica”. O objetivo do estudo, adianta, foi precisamente “fornecer as primeiras estimativas quantificadas das implicações económicas de viver com o vírus”.
A equipa aprofundou a análise para perceber se a fase da infeção no momento do diagnóstico alterava a gravidade do impacto. Considerou-se diagnóstico tardio quando o VIH já comprometera significativamente o sistema imunitário, medido pela contagem de células CD4. Os resultados mostraram que, embora todos os grupos sofressem perdas, o prejuízo é consideravelmente mais pesado para quem chega tarde aos cuidados de saúde. A quebra na probabilidade de estar empregado é de seis por cento para os diagnosticados tardiamente, contra três por cento para os casos identificados atempadamente. A diferença no número de horas trabalhadas também se acentua: uma redução de seis por cento contra cinco por cento. Já no que toca ao acesso a benefícios por doença, o contraste é ainda mais vincado: um aumento de 60 por cento para os diagnósticos tardios, face aos 37 por cento verificados nos restantes. Em termos de rendimento, a diminuição foi de nove por cento para ambos os grupos.
Marc van der Valk, professor na Universidade de Amsterdão, especialista em doenças infecciosas no centro médico académico (Amsterdam UMC) e presidente do conselho da SHM, considera os dados “surpreendentes”. Admite que a equipa esperava encontrar dificuldades nos casos avançados, mas a dimensão do efeito mesmo nas pessoas diagnosticadas precocemente pegou-os desprevenidos. “É sabido que o impacto na saúde física é, regra geral, mínimo quando se intervém a tempo”, explica Van der Valk. “No entanto, estas consequências menos óbvias, relacionadas com o trabalho e o rendimento, são uma novidade e precisam de ser divulgadas para ajudar a desenhar melhores políticas de prevenção.” O especialista reforça que a deteção precoce continua a ser a principal ferramenta para mitigar estes efeitos colaterais.
A dimensão do estudo só foi possível graças à colaboração entre diferentes disciplinas. Menno Pradhan, professor de economia na UvA e na Vrije Universiteit (VU) de Amsterdão, salienta a mais-valia da abordagem: “Ao aplicarmos métodos da economia laboral a dados clínicos de uma organização que conhece a epidemia nos Países Baixos como poucas, conseguimos iluminar facetas até agora invisíveis das consequências do VIH.”
Apesar de a esperança de vida das pessoas com VIH sob terapêutica antirretroviral eficaz se aproximar atualmente da população geral, os números agora publicados expõem uma vulnerabilidade persistente. Os autores do estudo, disponível na revista Nature Communications, sugerem que a fatia de rendimento que se desvanece e a instabilidade profissional devem ser tidas em conta nas estratégias de saúde pública e no apoio social a quem vive com o vírus.
https://www.nature.com/articles/s41467-025-67799-x#citeas
NR/HN/AlphaGalileo



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