Paulo Santos: Médico de família, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Do início ao necessário: pilotos abrem a porta ao rastreio organizado do cancro do pulmão

02/16/2026

“Dá o teu melhor até saberes mais. Quando souberes mais, faz melhor.”

Maya Angelou, EUA – século XX

Em Portugal, o cancro do pulmão é uma das principais causas de morte, responsável por milhares de novos diagnósticos e praticamente tantos óbitos todos os anos. Em 2022, foram diagnosticados 6.155 novos casos e registadas 5.077 mortes: em média, dezasseis pessoas são diagnosticadas com cancro do pulmão e catorze morrem diariamente. Ao fim de cinco anos, apenas um em cada sete doentes permanece vivo, não porque o cancro do pulmão seja inevitavelmente letal, mas porque a maioria dos casos continua a ser detetada tarde demais, quando as opções terapêuticas são limitadas e o prognóstico é reservado. Quando este cancro é identificado precocemente, a sobrevivência aumenta para 70 a 90%. Esta diferença entre uma morte quase certa e a possibilidade real de cura basta, por si só, para justificar a mudança do paradigma do diagnóstico no país.

Os grandes ensaios internacionais demonstraram que o rastreio com tomografia computorizada de baixa dose em fumadores e ex-fumadores de alto risco reduz a mortalidade por cancro do pulmão em mais de 20%, antecipando o diagnóstico para fases em que a cura é possível e os tratamentos são menos agressivos e menos dispendiosos. Nesta linha, em 2022, a Comissão Europeia recomendou que os Estados-membros avançassem com projetos-piloto de rastreio por tomografia computorizada, articulados com a cessação tabágica, como primeiro passo para uma implementação nacional. Vários países seguiram esta orientação. Alemanha, Croácia, Chéquia, Polónia e Reino Unido já têm programas nacionais de rastreio em marcha. Outros, como a Estónia, a França, a Grécia, a Hungria, a Irlanda, a Itália e a Espanha, têm projetos-piloto estruturados e financiados. Portugal, pelo contrário, permaneceu demasiado tempo num “manter em estudo” que, na prática, equivalia a adiar decisões. Só agora começam a surgir os primeiros projetos-piloto em algumas unidades de saúde, tirando finalmente o tema do papel e colocando-o no terreno.

Os estudos-piloto são fundamentais para afinar a execução: desde a identificação e o convite da população-alvo até à informação necessária para um consentimento livre e esclarecido. Debruçam-se sobre as questões de facilitação do acesso à cessação tabágica, da realização dos exames segundo protocolos padronizados, do reporte estruturado, da criação de algoritmos claros de seguimento para achados indeterminados, das vias rápidas para confirmação diagnóstica em caso de positividade e do apoio psicológico, sempre que necessário. Não são um fim em si; são uma etapa para garantir que o programa nacional nasça sólido, seguro e eficaz.

É neste ponto que Maya Angelou nos lembra o essencial: ter conhecimento implica agir de acordo com ele. Os pilotos não servem para justificar mais adiamentos: servem para limar arestas antes de escalar. Permitem gerir com clareza falsos positivos e sobrediagnósticos, criar percursos assistenciais transparentes e evitar que achados incidentais gerem ansiedade ou sobrecarga inútil para os doentes e para o sistema de saúde.

A questão da elegibilidade é central. O rastreio do cancro do pulmão não é aplicado indiscriminadamente num contexto puramente demográfico. É baseado no risco individual. Destina-se a pessoas com mais de 50 anos, fumadoras atuais ou ex-fumadoras que tenham deixado há menos de 15 anos, com uma carga tabágica significativa, ainda que os pormenores possam mudar consoante as recomendações. A estes somam-se fatores adicionais que aumentam o risco: história familiar, doença pulmonar obstrutiva crónica ou exposição relevante ao radão. Nestes grupos, a relação custo-benefício é amplamente favorável.

Na atual evidência científica, a pergunta relevante já não é se devemos rastrear, mas como o faremos com competência e em que momento assumiremos a escala necessária para alcançar impacto populacional. O rastreio tem duas vantagens decisivas: antecipa diagnósticos para estádios precoces, permitindo a intenção curativa; e reduz a pressão clínica e financeira associada ao tratamento da doença avançada, como sublinham análises de custo-efetividade em Portugal e noutros países europeus.

Portugal tem uma tradição de elevada adesão aos cuidados de saúde, incluindo rastreios oncológicos, mas enfrenta falhas consistentes na organização desses rastreios. No cancro colorretal, menos de um terço das pessoas elegíveis é convocado, apesar de uma adesão muito elevada quando o convite chega efetivamente. Isto revela falhas nos processos, que funcionam bem no papel, mas fracassam na prática. O problema do rastreio do cancro do pulmão não se resume à disponibilidade das tomografias computorizadas ou ao local onde serão realizadas. Está, antes de mais, na capacidade de governança: tratar a prevenção como prioridade e não como apêndice orçamental, garantindo uma máquina de convocatória multicanal fiável, percursos de diagnóstico bem definidos e transparência nos indicadores.

O Plano Nacional de Saúde 2030 define, entre os seus objetivos, a redução de mortes prematuras e preveníveis. Não restringe esse objetivo a geografias ou a perfis específicos de utilização dos serviços. É, por isso, imperativo que o rastreio do cancro do pulmão seja integrado de forma equitativa no território nacional, e não apenas por meio de experiências limitadas. Hoje sabemos mais, e isso obriga-nos a fazer melhor: transformar pilotos em políticas de saúde, abandonar avaliações amostrais intermináveis e passar a executar programas com metas, prazos e monitorização pública.

Há um ponto crucial: o tabaco é o principal fator de risco modificável para o cancro do pulmão. Qualquer estratégia de rastreio que não inclua a cessação tabágica estruturada e acessível falhará na promessa de reduzir de forma sustentada a incidência e a mortalidade. Desde a Lei 22/82 de 17 de agosto, Portugal tem reforçado a legislação de prevenção e combate ao tabagismo e assumiu a meta de uma geração livre de tabaco até 2040. É fundamental um investimento em programas de prevenção primária, sobretudo entre os adolescentes. Como é imprescindível que cada convite ao rastreio se acompanhe de um desafio à cessação tabágica, oferecendo o acesso às consultas. Não é um complemento: é o núcleo central da prevenção.

Os pilotos que agora emergem são uma boa notícia, porque mostram movimento após anos de inércia. São também um teste de maturidade coletiva: seremos capazes de os transformar, em tempo útil, numa política que identifique e convoque a população de risco, que publique os seus indicadores, que integre a cessação como padrão e que assegure uma via rápida do rastreio ao diagnóstico e ao tratamento? Se aprendermos com as falhas de rastreios anteriores, a resposta pode ser afirmativa; se as repetirmos, ficaremos com mais um arquivo de boas intenções e oportunidades perdidas.

Falar deste rastreio é escolher o tipo de sistema de saúde que queremos ter: um sistema reativo e caro, que chega tarde à doença avançada; ou um sistema antecipatório e justo, que atua sobre os determinantes, encontra o cancro quando ainda é curável e devolve anos de vida com qualidade. A evidência existe, a recomendação europeia está em vigor, os pilotos começaram. Falta apenas o passo político que separa a prudência da omissão: definir metas públicas de cobertura, garantir financiamento adequado, padronizar critérios, monitorizar prazos e resultados e prestar contas pelos ganhos ou pelas falhas.

Sabemos mais. Está na hora de fazer melhor

 

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