Jonathan dos Santos: “A não adesão é o ‘elefante na sala’ das doenças crónicas”

02/16/2026
Em entrevista exclusiva ao HealthNews, o especialista em MGF explica como a polypill cardiovascular pode revolucionar a prevenção secundária, aumentando a adesão à terapêutica e reduzindo a mortalidade. Aborda ainda o papel da Inteligência Artificial na gestão da hipertensão e na personalização dos cuidados

HealthNews (HN) – Enquanto especialista em MGF com foco cardiovascular, como define, na prática clínica diária, o conceito de Polypill cardiovascular e quais os seus componentes fundamentais que a distingue de uma simples associação de medicamentos?

Jonathan dos Santos (JS) – Vejo a polypill cardiovascular não apenas como uma conveniência posológica, mas como uma estratégia de gestão global do risco. Ao contrário de uma simples associação fixa para tratar uma única patologia, como juntar dois anti-hipertensores, a polypill distingue-se por “atacar”, num único comprimido, múltiplos mecanismos da doença aterosclerótica. Os seus componentes podem assentar na “tríade de ouro” para a prevenção secundária: um potente redutor de lípidos (estatina), um ou mais agentes anti-hipertensores e, em algumas formulações, um antiagregante plaquetar. O objetivo é tratar o risco cardiovascular como um todo e não aos “bocadinhos” ao mesmo tempo que garantimos um maior cumprimento terapêutico com maior comodidade para o doente.

HN – Quais são, na sua perspetiva e experiência, os benefícios clínicos mais tangíveis da polypill, particularmente em termos de adesão à terapêutica e controlo global do risco cardiovascular, comparativamente à prescrição de múltiplos comprimidos isolados?

JS – O benefício mais tangível e imediato é, sem dúvida, a adesão à terapêutica. Sabemos que a não adesão é o “elefante na sala” das doenças crónicas. Por exemplo, após um evento agudo, sabemos que muitos doentes abandonam parte da medicação ao fim de seis meses. Ao simplificar o esquema para um único comprimido, reduzimos o “cansaço” farmacológico. O estudo SECURE, que comparou populações com e sem polypill após um enfarte agudo do miocárdio, demonstrou que a polypill não só melhora a adesão, como reduz efetivamente a mortalidade cardiovascular e novos eventos isquémicos. Menos esquecimentos traduzem-se num controlo mais consistente da pressão arterial e do colesterol, protegendo o doente a longo prazo.

HN – Pode clarificar que perfis de doentes, em Medicina Geral e Familiar, são os candidatos ideais para iniciar terapia com a Polypill cardiovascular? E em que momento da história da doença cardiovascular, primária ou secundária, considera a sua introdução mais impactante?

JS – Na minha prática, a definição é clara: o candidato ideal é todo o doente que apresente mais do que um fator de risco cardiovascular com indicação para controlo farmacológico. Se por exemplo temos um doente que precisa de tratar a hipertensão e o colesterol simultaneamente, devemos pensar rapidamente em associar estas moléculas num único comprimido, em vez de esperar que a complexidade do tratamento leve ao seu incumprimento. Se quisermos encaixar a polypill no percurso da prevenção, será naturalmente na prevenção secundária ou terciária uma vez que é aqui que temos fatores de risco identificados ou doença já estabelecida. Não obstante a fase, a simplificação terapêutica é a chave. No estudo SECURE a estratégia da polypill demonstrou aumentar significativamente a adesão terapêutica – sabemos que a adesão elevada foi atingida por cerca de 71% dos doentes com polypill contra apenas 63% nos cuidados habituais aos 6 meses. Mais importante ainda, esta melhoria na adesão traduziu-se num benefício clínico real, com uma redução de risco de morte cardiovascular, enfarte ou AVC na ordem dos 24%. Portanto, o momento mais impactante é “o mais cedo possível”, seja para garantir que o doente pós-enfarte não abandona a terapêutica, seja para assegurar que o doente de alto risco em prevenção primária ou secundária mantém os seus fatores controlados a longo prazo.

HN – Na prática de MGF, observa-se por vezes uma certa confusão entre o conceito de Polypill cardiovascular e a associação tripla de fármacos para o tratamento da hipertensão arterial. Pode clarificar em que é que estas duas estratégias terapêuticas diferem, tanto nos objetivos como na composição, e em que contextos clínicos específicas cada uma deve ser considerada?

JS – Esta pergunta é muito pertinente. É fundamental desfazer essa confusão. A associação tripla para a hipertensão visa um objetivo hemodinâmico — o de baixar a pressão arterial através de três fármacos com mecanismos complementares (ex: IECA/ARA + bloqueador dos canais de cálcio + diurético). Já a polypill cardiovascular visa a redução do risco aterosclerótico global, combinando fármacos para o colesterol e hipertensão arterial com ou sem antiagregante plaquetar. Portanto, utilizamos a associação tripla em doentes hipertensos não controlados ou resistentes e utilizamos a polypill cardiovascular no doente com múltiplos fatores de risco cardiovasculares que beneficiem de uma atuação farmacológica diversificada mas num só comprimido.

HN – A simplificação terapêutica é um pilar. Que barreiras práticas, sejam relativas ao doente, ao médico ou ao sistema, ainda observa na implementação mais alargada desta estratégia em Portugal, e como podem ser ultrapassadas?

JS – Em Portugal, a principal barreira sistémica prende-se, por vezes, com a rigidez das comparticipações e a disponibilidade de formulações que permitam o ajuste fino das doses. Do lado do médico, existe ainda alguma inércia terapêutica e o receio de perder flexibilidade ao “fixar” as doses num só comprimido. Do lado do doente, talvez haja o mito de que um comprimido só pode não ser “tão forte” como três separados. Ultrapassamos isto com literacia em saúde, explicando que a eficácia é igual ou superior e com políticas de saúde que incentivem a prescrição de combinações fixas, valorizando o ganho em saúde pública que a adesão traz. Aliás, se virmos bem, as associações fixas podem até ser mais económicas para os doentes uma vez que aqui, no regime de comparticipação, prevalece o aplicável aos anti hipertensores (69%) e não o dos anti dislipidémicos (37%) que acabam por ser beneficiados não só na adesão como na percentagem de comparticipação.

HN – Mudando de tema para a inovação tecnológica, como vê o papel emergente da Inteligência Artificial (IA) como ferramenta de apoio à decisão clínica no manejo da Hipertensão Arterial (HTA) em contexto de consulta de MGF?

JS – O uso de IA é já inevitável. Vejo-a não como um substituto, mas como uma “inteligência aumentada” para o médico. Ora vejamos: a HTA é uma patologia de números e tendências. A IA tem a capacidade de processar volumes de dados que naturalmente nos escapam numa consulta de 15 ou 20 minutos, identificando padrões de risco ocultos, fenótipos específicos de hipertensão ou prevendo a resposta a determinados fármacos. A IA será capaz de nos retirar a carga burocrática da análise de dados brutos, permitindo-nos focar na decisão clínica.

HN – Concretamente, de que formas a IA pode, hoje ou num futuro próximo, auxiliar o médico de família e o próprio doente hipertenso na melhoria do controlo tensional, desde a monitorização à personalização do plano terapêutico?

JS – De forma muito concreta, a IA pode, por exemplo, revolucionar a leitura dos MAPA ao detetar perfis de não dipper ou picos matinais com muito maior precisão do que o ser humano. Num futuro próximo, algoritmos preditivos poderão indicar-nos qual a classe de anti-hipertensor mais eficaz para aquele doente específico, baseando-se na sua genética e comorbilidades (a tão falada medicina de precisão). Para o doente, aplicações baseadas em IA podem servir de coach digitais, monitorizando a adesão e alertando o médico em tempo real se os valores tensionais saírem do intervalo de segurança, o que permite uma intervenção proativa e não tão reativa. Eu, por exemplo, já prescrevo ferramentas de IA aos doentes para monitorização da sua HTA e vejo nos doentes um grande interesse em participarem mais no processo, aliás, a saúde é deles, não nossa.

HN – Por fim, como equaciona o equilíbrio entre a utilização de ferramentas de IA, que analisam grandes volumes de dados, e a relação médico-doente fundamental na MGF, especialmente numa área crónica e sensível como a doença cardiovascular?

JS – O equilíbrio reside em usar a IA para tratar os dados, para que o médico possa tratar a pessoa. A MGF baseia-se na relação de proximidade e confiança. Para já, nenhuma IA consegue substituir a empatia necessária para motivar um doente a mudar o estilo de vida ou a tranquilizá-lo após um diagnóstico de doença cardíaca. Se a IA me libertar tempo administrativo e me der certezas analíticas, eu ganho tempo de qualidade para olhar o doente nos olhos. A tecnologia deve ser a base que suporta a relação humana, para que a torne mais forte e informada, nunca o seu substituto.

Entrevista MMM

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

DGS regista subida da mortalidade fetal e infantil em 2024

Portugal registou em 2024 aumentos nos óbitos de fetos com mais de 22 semanas de gestação e nos óbitos de crianças nascidas vivas que faleceram com menos de um ano, segundo relatório da Direção-geral de Saúde (DGS).

VI Congresso da ATA debate saúde e movimento em Amarante

Auditório do Centro Cultural recebe, a 10 e 11 de abril de 2026, especialistas de várias áreas para refletir sobre o papel da atividade física no bem-estar biopsicossocial, numa organização da Associação Território de Afetos

APIFARMA debate futuro da vacinação em conferência no CCB

A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA) promove no dia 28 de abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a conferência “Preparar o Futuro | O Valor da Vacinação em Saúde”. O encontro, que assinala a Semana Europeia da Vacinação, conta com a apresentação de um estudo inédito sobre a perceção do valor das vacinas em Portugal

Doença silenciosa ameaça ser quinta causa de morte em 2050

A doença renal crónica, que muitas vezes não dá sinais, pode tornar-se a quinta principal causa de morte a nível mundial em 2050. O alerta foi deixado esta terça-feira pela diretora do Serviço de Nefrologia da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, a dois dias das comemorações do Dia Mundial do Rim e do 50.º aniversário da unidade

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights