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Há qualquer coisa de profundamente humano no ato de consertar. Talvez por isso o ministro tenha insistido tanto no tema, num tom que oscilou entre a exortação e a crítica. “Quando dizemos que a manutenção salva vidas é uma verdade e uma realidade”, afirmou Ussene Isse, em Infulene, nos arredores de Maputo. Para ele, a lógica é direta: sem equipamentos a funcionar, não há diagnóstico precoce nem tratamento célere. E sem isso, “obviamente que iremos perder vidas”. A frase, dita sem rodeios, fez ecoar uma realidade que há muito aflige os corredores dos hospitais públicos: filas de espera, máquinas paradas e doentes à espera.
A cerimónia serviu para dar o pontapé de saída ao projeto de Revitalização da Manutenção Hospitalar, uma iniciativa que junta esforços do ministério com a experiência internacional. O Japão, por via da Agência de Cooperação Internacional (JICA), disponibilizou computadores e um conjunto de ferramentas. O Hospital Geral Nipo-Brasileiro entra com o apoio técnico, ajudando no manuseio e na formação. Numa primeira fase, seis unidades sanitárias vão servir de laboratório para o projeto: Lichinga e Cuamba, no Niassa; Pemba, em Cabo Delgado; Xai-Xai e Bilene, em Gaza; e um hospital ainda não especificado na cidade de Maputo.
O governante não se ficou pelos agradecimentos. Aproveitou a ocasião para deixar um recado aos profissionais de saúde, pedindo que acelerem a inventariação do material. Disse querer ver um “movimento muito forte” para resgatar o que está encostado nos armazéns. E foi mais longe na crítica: “Estamos aí a gastar rios de dinheiro trazendo apoios externos, empresas externas que não conseguem resolver os nossos problemas. Gastamos muito dinheiro enquanto temos um país com capacidade de avançar.” A declaração, solta num momento menos formal do discurso, apontava para uma certa frustração com a dependência de soluções vindas de fora quando, acredita, há competências internas por aproveitar.
Do lado da JICA, o diagnóstico foi detalhado sem rodeios. Kazuki Otsuka, representante residente da agência em Moçambique, elencou os entraves que teimam em persistir: inventários desatualizados, aquisições sem padrões definidos, falta de peças sobressalentes e uma escassez crónica de técnicos de manutenção. “Em muitos sistemas de saúde e em particular de Moçambique ainda lidamos com equipamentos cujos utilizadores não têm formação para os operar”, apontou. O resultado, disse, é o aumento da probabilidade de avarias e a redução do tempo de vida útil das máquinas.
Para Otsuka, a manutenção não pode ser um evento esporádico. Tem de ser programada, preventiva, integrada no dia a dia. Se não for, os diagnósticos urgentes e os tratamentos que salvam vidas acabam por ficar reféns da falta de um simples cabo ou de uma peça que não chega.
O ministro, que parece ter saído do discurso oficial para uma conversa mais direta com os presentes, vincou a necessidade de reduzir os prazos de reparação. “Queremos ver os equipamentos a funcionar, queremos ver uma redução drástica do tempo de espera para os equipamentos serem reparados porque há capacidade, há condições para avançarmos.” E deixou uma meta concreta: quer ver a central nacional de manutenção operacional a funcionar ainda este ano.
NR/HN/Lusa



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