Morreu João Gomes-Pedro, o médico que ensinou o país a olhar para as crianças

16 de Fevereiro 2026

O professor João Gomes-Pedro, pediatra que revolucionou a forma como Portugal olha para a infância e a família, morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 86 anos. O médico deixa mais de cinco décadas de dedicação ao Hospital de Santa Maria e gerações de discípulos

A notícia foi confirmada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e pela Unidade Local de Saúde Santa Maria (ULSSM), num comunicado conjunto onde o descrevem como “uma figura maior da medicina portuguesa”. João Carlos Gomes Pedro, que nascera em 1939, licenciou-se na casa que nunca abandonaria em 1964. No ano seguinte entrou no internato do Hospital de Santa Maria – e por lá ficou mais de cinquenta anos. Primeiro como coordenador da Unidade de Pediatria em 1975, depois como chefe de serviço e, a partir de 1997, como diretor do Serviço de Pediatria.

Doutorou-se em 1982 e ascendeu a professor catedrático em 1990. Mas quem o conheceu lembra-o menos pelos títulos e mais pela forma como se sentava, atento, na primeira fila dos eventos da faculdade mesmo quando a mobilidade já lhe pedia uma cadeira de rodas. A FMUL criou em 2016 um prémio com o seu nome para distinguir o mérito pedagógico – forma de lhe agradecer em vida o exemplo, como recorda uma nota publicada recentemente pela própria faculdade .

O Presidente da República distinguira-o como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e Grande-Oficial da Ordem de Mérito. Mas talvez a condecoração que mais o tocasse fosse outra: em 2008, a SIC atribuiu-lhe um prémio como “anjo da guarda” das crianças, numa altura em que ainda fazia rondas por bairros de Lisboa para aconselhar famílias depois de dez horas de consultas .

Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, sublinhou que a vida de Gomes-Pedro “confundiu-se com a afirmação da criança como pessoa plena de direitos, dignidade e voz própria, numa época em que tal entendimento exigia visão e coragem intelectual”. Numa nota enviada à Lusa, o bastonário descreveu-o como “um médico inteiro, no sentido mais exigente da palavra” .

João Gomes-Pedro não era um pediatra convencional. Dizia que num universo de cinquenta bebés vestidos de igual, não era a auscultação que os distinguia, mas a observação do comportamento. Importou para Portugal o modelo do pediatra norte-americano Berry Brazelton, com quem fundaria em 2010 a Fundação Brazelton Gomes-Pedro – dedicada a formar profissionais de saúde e educação num modelo relacional, centrado no vínculo entre o bebé e a família . Defendia que os melhores tratamentos iniciais de qualquer criança eram o amor, o conforto e a alimentação. O resto, gostava de dizer, era uma apaixonante descoberta.

Aos 23 anos, quando já era pai, partiu para a guerra colonial na Guiné. Em vez de se limitar às tarefas militares, organizou uma consulta para crianças e aprendeu fula para não depender de tradutores. Assistiu a epidemias de sarampo e a sofrimento sem fim. Mais tarde, contava que a guerra lhe dera uma preparação brutal para a vida . Dessa experiência, guardou para sempre a certeza de que os bebés já nascem a falar – basta que alguém os saiba escutar.

Numa entrevista publicada em 2018, quando completou meio século de prática clínica, confessava que continuava a trabalhar dez horas por dia. Aos 77 anos, dizia que não se sentia cansado porque passava o tempo a brincar com crianças e a lidar com adolescentes. Recebia chamadas dos pais a qualquer hora – até aquela, memorável, de uma mãe que ligou aflita porque a filha engolira uma lagarta da couve. “São proteínas, não se preocupe”, tranquilizou-a .

A Faculdade de Medicina, o Hospital de Santa Maria e a Ordem dos Médicos endereçaram condolências à família, amigos e discípulos. Numa nota publicada recentemente no site da FMUL, uma colega escreveu-lhe uma espécie de carta aberta: “Obrigada por se manter perto de nós, Professor”. Lembrava que, mesmo nos últimos tempos, ele se obrigava a erguer-se da cadeira em momentos especiais – porque um homem que foi combatente na Guiné, que tratou crianças no mato, que construiu laços com pais e que ainda nos visita, não é um homem qualquer .

NR/HN/Lusa

2 Comments

  1. Ricardo Jorge Sampaio Cabral

    Conheci pessoalmente o Prof Dr João Carlos Gomes Pedro em abril de 1984 num Congreso de Pediatria do Desenvolvimento ( Jornadas Luso -Espanholas) , realizado em Sevilha em abril desse ano.
    Era um Homem e um Médico de exceção Amigo do seu amigo e de um Humanismo impar
    Como médico e amigo guardo dele as melhores recordaçãoes e o orivilégio de ter conhecido e convivido com um SER SUPERIOR.
    A Pediatra..os seus doentes ,os seus e a Medicina estáó de luto .
    Faleceu um Homem Bom e Sábio
    Um Bem -Haja Prof Dr J C Gomes Pedro
    Os meus sentidos pêsames a toda a família e amigos
    Ricardo Jorge Sampaio Cabral
    Médico portador da Cedula Profissional No 16171 da Ordem dos Médicos

  2. Ricardo Sampaio Cabral

    Conheci pessoalmente o Prof Dr João Carlos Gomes Pedro em abril de 1984 num Congreso de Pediatria do Desenvolvimento ( Jornadas Luso -Espanholas) , realizado em Sevilha em abril desse ano.
    Era um Homem e um Médico de exceção Amigo do seu amigo e de um Humanismo impar
    Como médico e amigo guardo dele as melhores recordaçãoes e o orivilégio de ter conhecido e convivido com um SER SUPERIOR.
    A Pediatra..os seus doentes ,os seus e a Medicina estáó de luto .
    Faleceu um Homem Bom e Sábio
    Um Bem -Haja Prof Dr J C Gomes Pedro
    Os meus sentidos pêsames a toda a família e amigos
    Ricardo Jorge Sampaio Cabral
    Médico portador da Cedula Profissional No 16171 da Ordem dos Médicos

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