Pais de crianças com Asperger sem respostas: “Subsídios não chegam para nada”

16 de Fevereiro 2026

A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) alertou hoje para a necessidade de um acompanhamento frequente e integrado na saúde e educação, sob pena de as pessoas com esta perturbação do espectro do autismo ficarem dependentes para toda a vida, sem conseguir gerir dinheiro, emprego ou a própria saúde

A presidente da APSA, Piedade Líbano Monteiro, falava à Lusa a propósito do dia internacional da Síndrome de Asperger, que se assinala na próxima quarta-feira, e deixou um apelo claro ao Estado: se houvesse investimento sério, “elas nunca seriam um ‘peso’, com subsídios e com problemas mentais e com problemas de desemprego e com problemas de depressões, quer para a pessoa em si, quer para as famílias”. A associação, que representa mais de 40 mil pessoas em Portugal com a síndrome, tem actualmente 398 associados.

Piedade Líbano Monteiro explicou que as dificuldades de interacção social levam frequentemente ao isolamento e, sem o devido suporte, instalam-se dependências várias. “Não sabem gerir dinheiro, não sabem de que médicos precisam, criam vícios”, enumerou, sublinhando que a resistência à mudança, característica da perturbação, agrava o problema. Muitos acabam por não sair de casa, não conseguem emprego duradouro ou sequer candidatar-se sozinhos. Daí a insistência em diagnósticos precoces e terapias “mais frequentes e consistentes” – as sessões quinzenais ou mensais, considera, ficam aquém do necessário.

No plano da saúde, a responsável defendeu que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) deveria estar apetrechado com equipas multidisciplinares viradas para as necessidades educativas especiais, capazes de intervir desde a ida ao centro de saúde. “Quando os pais levam os filhos ao centro de saúde”, exemplificou, deveria haver quem soubesse olhar para além da consulta de rotina.

O problema, porém, não se esgota nos hospitais. A educação é outro dos calcanhares de Aquiles. Na opinião de Piedade Líbano Monteiro, a esmagadora maioria dos professores não tem preparação para ensinar alunos com autismo. “No curso de educação, devia haver não uns mesinhos a trabalhar o autismo, nem um ano a trabalhar e a estudar o autismo”, afirmou, defendendo uma formação muito mais aprofundada, não apenas nesta área mas noutras necessidades especiais. Não raro, a síndrome traz comorbilidades associadas – perturbação bipolar, por exemplo – que obrigam a medicação, e os subsídios, lamenta, “não cobrem nem de longe nem de perto” essas despesas.

A Segurança Social também mereceu críticas. Os apoios estão “muito aquém” e, além disso, nem sempre chegam a todo o território. “Uma pessoa com deficiência não pode viver só em Lisboa para ter apoios”, disse, exigindo respostas nos arquipélagos e no interior. Até a própria associação sente na pele a rigidez burocrática: Piedade Líbano Monteiro conta que já tentou explicar à Segurança Social que não precisa de uma sala enorme para todos os associados, porque os jovens nunca estão todos em simultâneo na sede – os acompanhamentos são individuais e em horários distintos. “Eu já expliquei por todos os meios”, desabafou, sem que até agora tenha visto a exigência revista.

A APSA, criada em 2003 por pais de crianças com Síndrome de Asperger, é uma instituição particular de solidariedade social sem fins lucrativos que se dedica à integração das pessoas com esta perturbação do espectro do autismo.

NR/HN/Lusa

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