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O líder comunista falava no final de uma reunião com o presidente da Câmara de Ourém, Luís Miguel Albuquerque, num concelho onde os estragos nas infraestruturas públicas, só em equipamentos e espaços municipais, ascendem a valores entre 30 a 35 milhões de euros. Ouvir o autarca descrever o cenário de rutura impressionou-o: 800 quilómetros de vias estiveram intransitáveis, duas mil casas continuam sem energia elétrica e há quatro famílias cujas habitações estão irremediavelmente perdidas, equacionando-se agora realojamentos em estruturas modulares. Os números foram avançados pelo próprio Albuquerque e Raimundo fez questão de os repetir, como quem precisa de materializar o abstrato.
“O país vai ter que fazer opções sobre o que é que é prioritário”, afirmou, num tom que evitou rodeios. Para o secretário-geral do PCP, o executivo terá de decidir se mantém o rumo de “aventuras, loucuras, despesas para alimentar guerras” ou se volta as baterias para “enfrentar esta guerra no terreno, que é a guerra da reconstrução, da recuperação do país e da vida das pessoas”. A frase, proferida junto ao centro logístico que desde a tempestade Kristin recolhe donativos, serviu de pano de fundo para uma crítica mais ampla à ação governativa. Mais do que um desabafo, parecia uma linha vermelha.
Raimundo não poupou elogios à mobilização popular, esse “movimento de solidariedade extraordinário” que diz ter encontrado não só em Ourém, mas também na Marinha Grande, em Leiria ou em Alcácer do Sal. “É uma coisa extraordinária”, repetiu, destacando a entrega de autarcas, autoridades e anónimos. Mas fez questão de separar as águas: se a vontade e o empenho não faltam, o mesmo não se pode dizer dos recursos. “É um problema de falta de meios”, sentenciou, lembrando que as autarquias, sozinhas, dificilmente conseguirão repor estradas, equipamentos públicos ou redes de abastecimento de água. E ali, no meio daquela azáfama de caixotes e gente solidária, a constatação soou ainda mais crua.
E foi nesse ponto que o discurso endureceu. O líder do PCP apontou baterias ao Plano de Resiliência Nacional, apresentado pelo Governo como instrumento de resposta. “Vamos ver se não fica só pela propaganda”, atirou, questionando a capacidade de execução da máquina administrativa. Apesar de reconhecer que “algumas pessoas estão pontualmente a receber este ou aquele apoio”, Raimundo sublinhou que, mesmo com as verbas, o problema de fundo persiste: “É preciso haver quem reconstrua as casas”. Uma questão prática, de mão-de-obra e capacidade instalada, que o dinheiro por si só não resolve.
O temporal que varreu o país deixou um rasto de 16 mortos, centenas de feridos e desalojados, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. A situação de calamidade, que vigorava em 68 concelhos desde os primeiros dias de fevereiro, foi levantada na véspera. Em Ourém, além dos estragos materiais e das 40 pessoas que chegaram a estar desalojadas, 24 continuam acolhidas numa unidade de apoio em Fátima. Curiosamente, o Santuário tem dado também guarida a operacionais de proteção civil de várias partes do país . Outras 80 pessoas encontraram abrigo em casa de familiares. O concelho soma ainda cerca de dez mil habitações que ficaram destelhadas, um número que, por si só, ilustra a dimensão do desafio. Andamos todos a tapar o céu com a peneira, diz-se por lá.
NR/HN/Lusa



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