Reitora lança ponte a Faro para criar laboratório vivo contra cheias no campus

16 de Fevereiro 2026

A reitora da Universidade do Algarve, Alexandra Teodósio, desafiou o Município de Faro e entidades regionais a unirem esforços num projeto de adaptação climática que converta o problema das cheias no Campus da Penha numa oportunidade de inovação ecotecnológica, criando um espaço verde de infiltração e lazer para a comunidade

Foi a fechar o seminário “Água nas Cidades do Algarve — da Eficiência à Resiliência”, que decorreu a 6 de fevereiro no Campus da Penha, que a reitora decidiu lançar o desafio. Alexandra Teodósio quer transformar um problema antigo, as cheias que afectam a zona, numa oportunidade para posicionar a academia na linha da frente das soluções de adaptação climática. O apelo, dirigido à autarquia farense e a outras entidades com assento na região, parte de uma premissa: a ciência produzida na universidade pode e deve descer ao terreno.

A intervenção da reitora não se ficou pelas boas intenções. Alexandra Teodósio sublinhou que a Universidade do Algarve pode mobilizar conhecimento científico, capacidade técnica e recursos humanos altamente qualificados. Do outro lado, disse, o Município de Faro tem experiência consolidada em infraestruturação urbana e acesso a linhas de financiamento que estão neste momento disponíveis. A equação parece simples, mas a reitora sabe que juntar as peças exige vontade política e visão estratégica. Por isso, o discurso de encerramento do seminário serviu para deixar claro que este é o momento de transformar conhecimento em acção.

A ideia não é nova, mas ganha agora contornos mais definidos. Manuela Moreira da Silva, diretora do mestrado em Ciclo Urbano da Água — o curso que promoveu o evento —, explicou que a ambição vai muito além de resolver um problema hidráulico. “Esta colaboração poderá ir além da resolução de um problema hidráulico, assumindo-se como uma oportunidade de transformação urbana e ambiental, com a colaboração ativa de estudantes, docentes, técnicos e investigadores da área”, afirmou. O que se projecta para o Campus da Penha é um espaço onde natureza e tecnologia se cruzam para mitigar o risco de cheias, aumentar as zonas de infiltração e, já agora, criar um novo espaço verde urbano, com plantas e biodiversidade nativa. Tudo isto, claro, a pensar na resiliência climática.

Há, no entanto, um detalhe que os responsáveis não deixam escapar. O projecto quer afirmar-se como um verdadeiro living lab, um sítio de demonstração na área da ecohidrologia. A ideia é abrir o campus à cidade, convidar a comunidade a participar no desenvolvimento de soluções tecnológicas inspiradas na natureza. Não se trata apenas de aplicar conhecimento, mas de o testar, ajustar e validar em contexto real, com gente a passar, a observar, a questionar. Uma abordagem que cruza ciência, planeamento urbano e envolvimento cívico, com impacto directo na qualidade de vida, garante Manuela Moreira da Silva.

O seminário que serviu de palco a este anúncio juntou especialistas de várias áreas. Pelo programa, percebe-se que o tema da água nas cidades algarvias foi dissecado em várias frentes: financiamentos disponíveis para o ciclo urbano da água, com Aquiles Marreiros, da CCDR Algarve; o plano de drenagem de Faro, apresentado pela vice-presidente Valentina Calixto; ou as origens alternativas de água, como a dessalinização e a reutilização, com Helena Lucas e António Martins, ambos da Águas do Algarve. Carla Antunes, presidente da comissão diretiva da Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos, falou sobre integrar engenharia convencional com a natureza para criar resiliência nas cidades. Temas que, todos eles, conversam com o desafio lançado pela reitora.

Com este movimento, a Universidade do Algarve procura afirmar-se como agente ativo na construção de soluções sustentáveis para o território. O discurso de Alexandra Teodósio, neste seminário, alinha-se com a visão estratégica que a própria tem defendido desde que tomou posse, em dezembro passado. Na altura, a primeira mulher a liderar a instituição apresentou o “Horizonte 2030”, um plano que aposta na sustentabilidade, na inclusão e na investigação com projeção global. A diferença é que, agora, o discço desce do plano estratégico para o território concreto do Campus da Penha, um espaço que todos os dias é atravessado por estudantes e moradores.

O mestrado em Ciclo Urbano da Água, que organizou o seminário, é, ele próprio, uma aposta na formação avançada para responder aos desafios da gestão da água. O curso, que funciona em horário pós-laboral às sextas e sábados, assenta em três pilares: as infraestruturas urbanas, a gestão sustentável da água (origens, qualidade, usos e reutilização) e a governança (economia, políticas e regulamentação). Informações sobre o ciclo de estudos estão disponíveis em https://www.ualg.pt/curso/1743.

PR/HN/MM

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