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A Unidade Local de Saúde de Coimbra anunciou esta segunda-feira a desativação do Plano de Emergência Externo (PEE) e do Plano de Emergência Interno (PEI), que estiveram ativados no nível 2 durante o período mais crítico da cheia do rio Mondego. A decisão foi comunicada através das redes sociais da instituição, que justificou a medida com a superação da fase de maior risco associado à subida das águas.
O PEE vigorou no segundo nível “durante a situação de calamidade, para reforçar a capacidade de resposta” da unidade perante um evento extremo que colocou à prova toda a região. O PEI, focado na organização interna e segurança dos serviços, foi igualmente desativado, num sinal de que as estruturas de saúde podem agora regressar gradualmente à normalidade.
Num registo pouco habitual em comunicações oficiais, a ULS deixou uma palavra pública aos profissionais das várias unidades de saúde que, “apesar do impacto que as intempéries também tiveram nas suas vidas, asseguraram cuidados de saúde às populações, apoiaram os trabalhos no terreno e permitiram manter a operacionalidade dos serviços”. A mensagem, publicada na página da instituição, destaca o esforço individual de quem, mesmo com casas ou bens próprios afetados, se manteve nos postos ou reforçou as equipas no terreno.
O anúncio surge num contexto de alívio hidrológico gradual no Baixo Mondego, depois de dias de grande tensão. O caudal do rio, que chegou a ultrapassar os 1.500 metros cúbicos por segundo na Ponte-Açude, rondava esta segunda-feira valores próximos dos 500, muito abaixo do limiar de segurança. A estabilização permitiu inclusive o início das obras de reparação no dique dos Casais, na margem direita, que rompeu no dia 11 de fevereiro junto ao viaduto da A1, cenário que obrigou ao corte da autoestrada nos dois sentidos – uma situação que se mantém e cuja resolução definitiva poderá prolongar-se por várias semanas, segundo as autoridades.
O impacto humano das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que assolaram o continente nas últimas três semanas, deixou um rasto pesado: dezasseis pessoas perderam a vida em todo o país, e registaram-se muitas centenas de feridos e desalojados. As consequências materiais incluem a destruição total ou parcial de habitações, empresas e equipamentos, queda de árvores e estruturas, encerramento de estradas, escolas e transportes, para além de cortes no fornecimento de energia, água e comunicações. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais castigadas, com o distrito de Coimbra a concentrar grande parte das ocorrências mais graves.
A situação de calamidade pública, que abrangia 68 concelhos, terminou oficialmente no domingo, embora os trabalhos de limpeza e reposição de infraestruturas estejam longe do fim. Nos campos agrícolas do Baixo Mondego, os prejuízos são ainda incalculáveis, e os agricultores temem não ter água para as culturas já na primavera, uma vez que o canal de rega foi arrastado com a rutura do dique. A cooperativa local apelou ao Governo que agilize a burocracia para acelerar as obras, sublinhando que duas mil famílias dependem diretamente da atividade agrícola na região.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, deslocou-se por diversas vezes a Coimbra durante os dias mais críticos, tendo anunciado a intenção de rever todo o sistema hidráulico do Mondego, que data dos anos 70, e avançar com a construção da barragem de Girabolhos como medida estrutural para aumentar a resiliência da região a fenómenos extremos. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também acompanhou de perto a evolução da situação, elogiando o trabalho preventivo dos autarcas e das equipas de proteção civil.
A ULS de Coimbra não avançou, para já, com um balanço detalhado da atividade assistencial durante o período de emergência, nem especificou se houve necessidade de transferir doentes ou mobilizar meios extraordinários. O tom do comunicado, no entanto, aponta para o reconhecimento de um esforço coletivo que ultrapassou as paredes dos hospitais e centros de saúde, num momento em que a cidade e os concelhos vizinhos viveram dias de sobressalto, com evacuações preventivas que chegaram a envolver cerca de três mil pessoas em zonas ribeirinhas como Conraria, Cabouco, Ceira, Torres do Mondego, São Martinho do Bispo ou Taveiro.
Nas redes sociais, as reações à mensagem da ULS misturam elogios ao trabalho dos profissionais com relatos de quem passou pelos centros de saúde ou hospitais durante os dias de maior aperto. Há quem peça agora um apoio psicológico para os trabalhadores, que acumularam turnos exaustivos enquanto lidavam com a incerteza sobre a segurança das próprias famílias.
A Proteção Civil mantém-se em campo, embora com um dispositivo progressivamente reduzido, a monitorizar a evolução dos caudais e a apoiar as populações que começam a regressar a casa. O cenário, esta segunda-feira, é de sol e de uma tranquilidade que há uma semana parecia improvável. Mas a memória dos dias em que o Mondego ameaçou engolir a cidade fica, e o trabalho de recuperação – esse – está apenas a começar.
NR/HN/Lusa



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