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HEalthNews (HN) – Na sua transição da prática clínica para a comunicação, referiu que o verdadeiro desafio da medicina moderna está na prevenção, e que esta é indissociável de uma comunicação clara. Enquanto diretor de One Health, como é que essa convicção se traduz em estratégias concretas para capacitar cidadãos e comunidades a adotarem comportamentos preventivos, não apenas em relação à sua saúde, mas também à dos animais e do ambiente que os rodeia?
Bernado Soares (BS) – A prática clínica ensinou-me algo muito claro: a maioria das situações que chegam ao consultório poderiam ter sido evitadas ou mitigadas com decisões tomadas mais cedo. O verdadeiro desafio da medicina, humana ou veterinária, não está apenas na capacidade de tratar, mas na capacidade de antecipar. E a antecipação começa na comunicação.
Enquanto One Health Director, essa convicção traduz-se numa estratégia concreta: transformar conhecimento técnico em literacia prática. Produzir ciência não é suficiente. É necessário torná-la compreensível, acionável e relevante para o quotidiano das pessoas.
Trabalho essa dimensão em três níveis. Primeiro, o cidadão. Falar de prevenção como um conjunto de decisões diárias — vacinação atempada, desparasitação regular, acompanhamento preventivo, gestão responsável de resíduos, contacto consciente com ambientes naturais. Pequenas escolhas com impacto cumulativo na saúde individual e coletiva. Segundo, integrar a saúde animal e ambiental na narrativa da saúde humana. Continuamos a comunicar estas dimensões como compartimentos separados. Quando explicamos que a saúde do animal influencia diretamente a saúde da família e que o equilíbrio ambiental condiciona a emergência de doenças, criamos uma leitura sistémica — e, por isso, mais responsável. Terceiro, a cultura coletiva. Escolas, autarquias, empresas e profissionais de saúde têm de incorporar a prevenção como norma. A prevenção só é eficaz quando deixa de ser exceção. E isso começa, invariavelmente, pela forma como comunicamos risco e responsabilidade.
HN – A pandemia de COVID-19 funcionou como um alerta global para a origem zoonótica de novas doenças. Tendo em conta que cerca de 60% das doenças infecciosas emergentes têm origem animal, e que a pressão humana sobre habitats naturais, como a desflorestação na Amazónia, força o contacto com a fauna selvagem, que cenário antevê para a emergência de novas patologias? Estaremos mais bem preparados para a tão falada “Doença X”?
BS – Os dados são claros: a maioria das doenças infecciosas emergentes tem origem zoonótica. Isto não é um fenómeno recente. O que mudou foi o contexto. A pressão humana sobre ecossistemas, a desflorestação, a urbanização desordenada e a intensificação de contactos entre espécies criam condições particularmente favoráveis à emergência de novas patologias. O cenário mais provável não é o de uma única grande ameaça inesperada, mas o de uma sucessão de eventos com impacto variável — surtos localizados, doenças reemergentes, expansão geográfica de vetores — num mundo altamente interligado. A mobilidade internacional e as cadeias globais de abastecimento aceleram a disseminação de qualquer agente infeccioso.
Um exemplo recente é o vírus Nipah, atualmente circunscrito a alguns países asiáticos, mas com uma taxa de letalidade elevada e transmissão associada ao contacto entre humanos e reservatórios animais, como morcegos. O que este caso demonstra não é apenas o risco em si, mas a importância da vigilância precoce e da articulação entre autoridades de saúde humana e veterinária. Até ao momento, a contenção tem sido eficaz — precisamente porque houve capacidade de identificação rápida, isolamento e monitorização integrada.
Estamos mais bem preparados do que em 2019? Em alguns aspetos, sim. A vigilância laboratorial evoluiu, a capacidade de sequenciação genética é hoje mais rápida e a partilha internacional de dados tornou-se mais ágil. A consciência pública sobre zoonoses também aumentou.
No entanto, persiste uma fragilidade estrutural: continuamos a integrar a prevenção tardiamente nas políticas públicas. Esta limitação não é apenas cultural; resulta também da insuficiente colaboração e comunicação multissetorial. Enquanto a saúde humana, animal e ambiental forem pensadas de forma fragmentada, a preparação será inevitavelmente parcial.
A chamada “Doença X” não é apenas uma hipótese epidemiológica. É um lembrete de que a próxima crise poderá surgir no ponto de interseção entre desequilíbrio ambiental, proximidade entre espécies e défice de literacia. A verdadeira preparação não se mede apenas na robustez da resposta hospitalar, mas na capacidade de reduzir risco à partida — através de uma abordagem integrada, contínua e preventiva.
HN – Para além da destruição de habitats, as alterações climáticas são um fator determinante na propagação de doenças. Já alertou para o degelo do permafrost e a possível reativação de vírus inertes, bem como para a expansão de vetores como mosquitos, trazendo a dengue para a Europa. Como é que a saúde pública portuguesa e europeia se deve reorganizar para enfrentar ameaças que antes pareciam distantes?
BS – Durante décadas, olhámos para determinadas ameaças sanitárias como geograficamente distantes. Essa perceção já não é válida. As alterações climáticas estão a modificar padrões ecológicos de forma acelerada. O prolongamento de períodos de temperaturas amenas aumenta a atividade de vetores transmissores, ampliando janelas de exposição. A redução dos habitats naturais de espécies selvagens cria novos contactos entre hospedeiros e agentes patogénicos. Fenómenos extremos destabilizam ecossistemas inteiros.
Perante este cenário, a reorganização da saúde pública não pode limitar-se ao reforço da capacidade hospitalar. É necessário consolidar sistemas de vigilância integrada — epidemiológica, veterinária e ambiental — que cruzem dados em tempo real.
Precisamos de modelos preditivos mais robustos, baseados em informação climática, ecológica e sanitária, capazes de identificar padrões antes da materialização do surto. Ao nível europeu, isso implica maior articulação entre países e harmonização de protocolos. A nível nacional, exige canais permanentes de cooperação entre autoridades de saúde humana, veterinária e ambiental. O risco deixou de ser excecional. É estrutural. E as estruturas têm de se reinventar.
HN – Defende que o médico veterinário é um “guardião da saúde pública” e uma peça fundamental na literacia em saúde. No entanto, esta integração ainda não é plenamente visível no sistema. Na sua opinião, o que é necessário mudar na formação e na prática clínica, tanto em medicina humana como veterinária, para que a colaboração entre estas áreas seja uma realidade no dia a dia dos profissionais de saúde?
BS – A integração entre medicina humana e veterinária ainda é, muitas vezes, conceptual e não operacional. Fala-se de colaboração, mas os percursos formativos continuam, na sua maioria, separados e com poucos momentos de interseção prática.
É necessário começar na base: introduzir de forma estruturada conteúdos de saúde integrada nos currículos académicos, promover estágios interdisciplinares e criar espaços formais de diálogo entre estudantes e profissionais das diferentes áreas. A compreensão de que partilhamos riscos epidemiológicos, determinantes ambientais e desafios comuns deve fazer parte da formação inicial.
Na prática clínica, é fundamental estabelecer protocolos de articulação mais claros. Médicos e médicos veterinários devem ter canais definidos para partilha de informação em situações de risco zoonótico, surtos locais ou exposição ambiental relevante. Isso exige também reconhecimento institucional do papel do médico veterinário como agente ativo de saúde pública.
Finalmente, é necessário valorizar a literacia em saúde como competência transversal. O profissional de saúde — seja humana ou veterinária — não trata apenas doença; comunica risco, orienta comportamento e influencia decisões. Quanto maior for essa capacidade de comunicação integrada, maior será o impacto preventivo. A colaboração não deve depender de circunstâncias excecionais. Deve ser parte da rotina. Porque os desafios que enfrentamos já não respeitam fronteiras disciplinares — e a resposta também não pode respeitá-las.
HN – Iniciativas como os “One Health Pet Awards” e o projeto “One Health Regenera” demonstram uma tentativa de materializar o conceito e levá-lo à sociedade. No caso concreto da regeneração de ecossistemas após incêndios com a instalação de colmeias, como é que um projeto de base ambiental se reflete em ganhos diretos para a saúde humana e animal a curto, médio e longo prazo?
BS – Quando falamos de regeneração ambiental, falamos muitas vezes em resultados pouco discerníveis. No entanto, o impacto é profundamente concreto. A instalação de colmeias em territórios afetados por incêndios não é apenas uma ação simbólica de recuperação ecológica; é uma intervenção estrutural sobre o equilíbrio e a prosperidade do ecossistema.
A curto prazo, reforça-se a polinização e acelera-se a regeneração da flora local, estabilizando solos e promovendo biodiversidade. Isso reduz fenómenos de erosão, melhora a qualidade do ar e contribui para a recuperação de cadeias alimentares que sustentam fauna silvestre e produção agrícola. A médio prazo, um ecossistema mais equilibrado significa menor proliferação descontrolada de espécies oportunistas e vetores de doença. Biodiversidade saudável tende a funcionar como barreira natural à propagação de agentes patogénicos. A longo prazo, os ganhos tornam-se sistémicos. Territórios resilientes são menos vulneráveis a extremos climáticos, menos propensos a desequilíbrios sanitários e mais capazes de sustentar comunidades humanas e animais de forma sustentável. Um projeto ambiental bem desenhado é, na verdade, uma política preventiva de saúde pública. O ambiente é o primeiro determinante de saúde — e regenerá-lo é reduzir risco antes que este se traduza em doença.
HN – A relação entre humanos e animais de companhia é cada vez mais próxima, com benefícios comprovados para a saúde mental e física. No entanto, essa proximidade também acarreta riscos, como a transmissão de parasitas ou o impacto ecológico de gatos em ambiente urbano. Como é que se comunica esta dualidade de forma eficaz, promovendo os benefícios desta relação sem descurar a responsabilidade individual e coletiva?
BS – A proximidade entre humanos e animais de companhia é, sem dúvida, uma das transformações sociais mais relevantes das últimas décadas. Não há dúvidas quanto aos benefícios: redução do stress, menor sensação de solidão, incentivo à atividade física e reforço de rotinas estruturantes. Esta relação tem impacto real na saúde mental e física das pessoas.
No entanto, a proximidade implica responsabilidade. A transmissão de parasitas, doenças zoonóticas ou impactos ecológicos — como a pressão predatória de gatos em meio urbano — são realidades que não podem ser ignoradas. O erro está em tratar estes temas como incompatíveis. Comunicar esta dualidade exige equilíbrio. Não se trata de alarmar, mas de informar. O afeto não deve ser contraposto à responsabilidade; deve ser enquadrado por ela. Um tutor informado protege melhor o seu animal, a sua família e o ambiente.
A chave está na literacia. Explicar riscos de forma clara, contextualizada e baseada em evidência permite promover comportamentos preventivos sem comprometer o vínculo emocional. A relação humano-animal é um ativo social e sanitário, mas só o é plenamente quando assente em conhecimento e cuidado informado.
Em saúde integrada, não há contradição entre proximidade e prudência. Há complementaridade. E é essa mensagem que deve orientar a comunicação: os benefícios mantêm-se — e ampliam-se — quando a responsabilidade acompanha o afeto.
HN – Olhando para o futuro, vê Portugal como um potencial pioneiro na implementação de políticas públicas verdadeiramente alinhadas com a visão One Health. Quais são, no seu entender, os próximos passos indispensáveis para que decisores políticos, médicos e comunicadores de saúde integrem definitivamente esta lógica, tornando o sistema de saúde mais resiliente e sustentável?
BS – Portugal tem condições para assumir um papel relevante nesta área. Temos dimensão territorial que permite testar modelos integrados com maior agilidade, temos uma comunidade científica qualificada e temos experiências concretas que demonstram capacidade de articulação entre setores.
Para que a lógica integrada deixe de ser discurso e passe a ser prática, são necessários três movimentos claros. O primeiro é institucional: criar mecanismos formais de articulação entre saúde humana, saúde animal e ambiente, com canais permanentes de partilha de dados e definição conjunta de prioridades. Enquanto estas áreas continuarem a operar em clusters isolados, a antecipação será sempre limitada. O segundo é formativo. A integração tem de começar nas universidades e prolongar-se na formação contínua dos profissionais. Médicos, veterinários, farmacêuticos, biólogos, engenheiros ambientais e comunicadores de saúde devem partilhar espaços de aprendizagem e projetos comuns. A colaboração não pode depender apenas da boa vontade individual; tem de ser desenhada no próprio modelo de formação. O terceiro é comunicacional. A forma como falamos de saúde molda a forma como a organizamos. Se continuarmos a comunicar clima, doenças e ambiente como temas separados, reforçamos essa fragmentação no sistema. Integrar a narrativa é parte da integração estrutural.
Um sistema de saúde resiliente não é apenas aquele que responde bem à crise, mas aquele que reduz a probabilidade de a crise acontecer. Isso implica visão de longo prazo, políticas públicas coerentes e uma cultura de prevenção sustentada por literacia.
A oportunidade está perfeitamente ao nosso alcance. Transformar essa oportunidade em liderança dependerá da capacidade de ligar conhecimento, decisão e comunicação numa mesma estratégia. A saúde do futuro será necessariamente integrada. A questão é se queremos liderar essa transição ou limitar-nos a acompanhá-la.
Entevista: MMM



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