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O primeiro transplante cardíaco realizado em Portugal aconteceu no dia 18 de fevereiro de 1986, no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, numa intervenção liderada pelo cirurgião João Queiroz e Melo, atualmente aposentado. Quarenta anos volvidos, a data é assinalada pela Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental (ULSLO) como um dos momentos mais marcantes da história da medicina no país .
O procedimento inaugural abriu caminho a um programa de transplantação que, ao longo destas quatro décadas, permitiu realizar 346 transplantes cardíacos. O número traduz-se em 345 vidas salvas, uma vez que houve um caso de retransplante, e representa milhares de anos de vida acrescidos aos doentes com insuficiência cardíaca terminal e respetivas famílias. A equipa que concretizou o primeiro transplante enfrentou desafios consideráveis, num tempo em que a experiência internacional ainda era limitada e os recursos técnicos não eram os mesmos de hoje . À data, Queiroz e Melo liderou uma equipa que deu os primeiros passos num território clínico por explorar em Portugal.
Desde que o Hospital de Santa Cruz foi designado Centro de Referência para Transplantes Cardíacos de Adultos, em julho de 2016, a complexidade da casuística aumentou. Foram realizados cinco transplantes combinados cardíaco-renais, procedimentos que exigem uma coordenação muito apertada entre diferentes especialidades . Um desses casos, ocorrido em janeiro de 2020, foi inclusive objeto de publicação científica por envolver um doente com distrofia muscular de Becker que necessitou de retransplante cardíaco e transplante renal sequencial do mesmo dador . A literatura médica regista que o doente, de 52 anos à data da intervenção, recuperou e mantinha função cardíaca e renal normais nos primeiros meses de seguimento .
Os resultados recentes indicam uma aceleração da atividade. O ano de 2025 foi o mais profícuo de sempre, com 21 transplantes cardíacos realizados em apenas doze meses. O número supera os registos anuais anteriores e reflete a consolidação do trabalho da equipa multidisciplinar, que envolve cirurgiões, cardiologistas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, técnicos de diagnóstico e farmacêuticos. Em declarações publicadas no âmbito das celebrações do 39.º aniversário, em fevereiro de 2025, a presidente do Conselho de Administração da ULSLO, Isabel Aldir, afirmou que “em 1986, um gesto de coragem e dedicação trouxe esperança e renovação para muitas vidas; hoje, seguimos o legado desses profissionais extraordinários com o mesmo entusiasmo e compromisso” . Na mesma ocasião, Marta Marques, coordenadora do centro de referência de Transplantação Cardíaca, sublinhou o orgulho em “continuar a ser um local de inovação e referência na assistência ventricular de curta, média e longa duração” .
O legado do primeiro transplante não se limita aos números. A ULSLO tem investido na formação de novas gerações de profissionais de saúde e na incorporação de tecnologia, designadamente na colocação de dispositivos de assistência ventricular, como os corações artificiais HeartMate 3. Em 2024, o hospital implantou quatro destes dispositivos, posicionando-se como a unidade nacional com mais casos deste género .
A data de 18 de fevereiro de 2026 é, assim, um momento de balanço para os profissionais envolvidos e para os doentes que beneficiaram do programa. O caso do primeiro transplante combinado cardíaco-renal realizado no país, em abril de 2020, foi noticiado à época pelo secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, como uma demonstração da resiliência do Serviço Nacional de Saúde mesmo durante o período mais crítico da pandemia de covid-19 . O diretor do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do então Centro Hospitalar Lisboa Ocidental, José Pedro Neves, explicou então que o doente, de 39 anos, estava “há muitos meses à espera de coração, com uma doença arrastada” e que a intervenção ocorreu no domingo de Páscoa, envolvendo uma equipa que fez o transplante cardíaco de manhã e o renal durante a tarde .
A ULSLO mantém o compromisso com a investigação e com a melhoria contínua dos cuidados, procurando garantir que o acesso a transplantes se mantenha equitativo e atempado. O recorde de 2025, com 21 procedimentos, é entendido internamente como prova de maturidade e capacidade instalada. A unidade prossegue o trabalho de referência na área cardiotorácica, suportado pela generosidade dos dadores e das suas famílias, sem os quais os números não passariam de estatísticas vazias. O arquivo da RTP regista, num pequeno excerto de 1986, as primeiras declarações de Queiroz e Melo após o transplante a Eva Pinto, a primeira transplantada cardíaca portuguesa: “a paciente não está livre de perigo, daí não permitir a sua alta do hospital” . Quarenta anos depois, o prognóstico de curto prazo deu lugar a sobrevivências prolongadas e a uma atividade regular que se consolidou como espinha dorsal da cirurgia cardíaca terminal em Portugal.
NR/HN/Lusa



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