Nuno Simões: Enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação e em enfermagem médico-cirurgica

Perseguição profissional, assédio moral, ameaça, coação e obstrução de competências no SNS: o lado oculto do abuso de poder

02/18/2026

No debate sobre o futuro do Serviço Nacional de Saúde (SNS) fala‑se de falta de profissionais, burnout, salários e modelos de gestão. Muito menos se fala de fenómenos que corroem silenciosamente equipas inteiras: perseguição profissional, assédio moral, ameaça, coação e obstrução do exercício pleno das funções e competências profissionais. Não são “conflitos normais de trabalho”; são formas estruturadas de abuso de poder, com impacto profundo na saúde mental dos profissionais, na qualidade dos cuidados e na credibilidade do serviço público.

O que são perseguição, assédio, ameaça, coação e obstrução de competências?

Em termos laborais, o assédio moral corresponde a comportamentos indesejados, repetidos ao longo do tempo, que visam ou produzem um ambiente intimidatório, hostil, humilhante ou desestabilizador. Inclui:

  • Isolamento social deliberado: não informar, não convocar para reuniões, excluir de grupos de comunicação (MS Teams, WhatsApp, Telegram, Signal, de equipas ou projetos organizacionais ou setoriais.
  • Desqualificação continuada: críticas injustas, boatos, ataques à reputação, comentários depreciativos diante de pares ou utentes.
  • Atribuição de tarefas humilhantes, inúteis ou manifestamente inferiores à categoria profissional, ou, pelo contrário, sobrecarga intencional sob stress para provocar falhas e processos disciplinares com vista a despedimento.
  • Retirada de meios de trabalho, informação, formação profissional contínua e oportunidades de desenvolvimento profissional.

A perseguição profissional é a expressão prolongada e sistemática desse assédio focado na carreira: escalas punitivas, avaliações negativas sem fundamento, processos disciplinares instrumentalizados, exclusão recorrente e irregular de procedimento concursais ou responsabilidades.

A ameaça é a promessa explícita ou velada de um mal futuro (“vais pagar por isto”, “não te esqueças quem assina a tua avaliação”), enquanto a coação surge quando essa ameaça é concretizada para forçar um comportamento: pressionar alguém a retirar uma queixa, a apoiar publicamente decisões, a aceitar funções injustas, sob pena de perder posição, carreira ou equilíbrio pessoal.

A obstrução de funções e competências profissionais é uma forma específica e subtil de abuso: consiste em impedir, limitar ou desfigurar o exercício das competências para as quais o profissional está legalmente habilitado e responsável. Manifesta‑se, por exemplo, quando:

  • se bloqueia sistematicamente o exercício de atos próprios da profissão (como competências de um administrador hospitalar, de um médico especialista de determinada área, de enfermeiro especialista ou de um técnico superior de diagnóstico e terapêutica, ou outro profissional de saúde), sem fundamento clínico ou organizacional aceitável;
  • se retira a responsabilidade por tarefas compatíveis com a qualificação, reduzindo o profissional a tarefas residuais, meramente instrumentais, para o “neutralizar” ou desvalorizar;
  • se condiciona o acesso a decisões clínicas ou organizacionais em que o profissional de saúde deveria participar, transformando‑o num mero executor, apesar do seu nível de competência.

Nestes casos, o profissional não é apenas atacado na dignidade pessoal; é amputado no exercício da sua identidade profissional, o que fere também o direito dos doentes a cuidados prestados por quem está plena e autonomamente habilitado.

Como se manifesta no SNS

Num contexto hierarquizado como o SNS, onde chefias controlam horários, avaliação de desempenho, formação profissional, distribuição de funções e o acesso a cargos, a linha entre a autoridade legítima e o abuso de poder pode ser facilmente ultrapassada.

Alguns exemplos práticos:

  • Um médico que denuncia irregularidades passa a ser excluído de reuniões clínicas e decisões terapêuticas relevantes, vê consultas esvaziadas, listas alteradas sem critério clínico e é impedido de participar em projetos ou comissões em que teria competência reconhecida.
  • Um enfermeiro especialista que questiona práticas injustas é afastado de funções de maior responsabilidade, retiram‑lhe a possibilidade de exercer competências avançadas e passa a ser colocado sistematicamente em tarefas básicas.
  • Um administrador hospitalar é mantido sem responsabilidades relevantes, sem acesso a informação necessária, sem autonomia, enquanto o grosso da sua área é assumido por pessoas com menor qualificação mas maior proximidade ao Conselho de Administração.

Esta obstrução de funções e competências, combinada com ameaça (“se não te calas, ficas assim até à reforma”) e coação (“assina isto ou mudamos o teu horário para algo pior”), constitui uma forma particularmente insidiosa de perseguição profissional. Não se vê num e‑mail isolado; sente‑se, dia após dia, na desprofissionalização forçada de quem é alvo.

Relação com nepotismo, favoritismo e injustiça organizacional

Assédio, ameaça, coação e obstrução de competências raramente surgem em organizações onde a justiça organizacional é forte. Pelo contrário, tendem a florescer onde:

  • postos e chefias são ocupados por afinidades pessoais em vez de mérito;
  • o favoritismo define quem é promovido, protegido ou “blindado” a críticas;
  • regras são opacas e não há canais eficazes de denúncia.

Nesses contextos, obstruir competências profissionais torna‑se uma ferramenta útil: retira‑se poder técnico e visibilidade a quem incomoda (porque denuncia irregularidades, exige critérios, defende o código deontológico) e concentra‑se a influência em círculos mais obedientes e subservientes. A ameaça e a coação servem para consolidar este arranjo: “se quiseres continuar a exercer plenamente, não levantes ondas”.

Assim, nepotismo, favoritismo, assédio e obstrução de funções são peças de um mesmo mecanismo: um sistema onde o poder se exerce contra o dever público, e não ao seu serviço.

Impacto nos profissionais, nos doentes e no serviço público

As consequências são graves:

  • Na identidade e saúde dos profissionais de saúde: impedir alguém de exercer as competências para as quais se formou e especializou é um ataque direto à sua identidade profissional. Soma‑se ao desgaste psicológico clássico do assédio (ansiedade, depressão, stress pós‑traumático, burnout) um sentimento de inutilidade e de traição do próprio projeto de vida.
  • Nos doentes e na qualidade dos cuidados: quando administradores hospitalares, médicos diferenciados, enfermeiros especialistas ou outros profissionais altamente qualificados são deliberadamente impedidos de usar o seu saber, perdem‑se oportunidades de melhor gestão, diagnóstico, tratamento, reabilitação e humanização. A obstrução de competências não é só um problema interno; é um risco para a qualidade assistencial.
  • Na cultura de equipa: colegas percebem que competência e dedicação podem ser punidas com esvaziamento de funções. O resultado é medo, conformismo e fuga do sistema, especialmente dos mais qualificados.
  • Na integridade do serviço público: utilizar ameaça, coação e obstrução de competências para controlar consciências e calar denúncias é incompatível com qualquer ideia de Administração Pública ao serviço do interesse coletivo.

O que fazer: linhas de ação para um SNS decente

Enfrentar este lado oculto do abuso de poder exige medidas concretas:

  • Reconhecer explicitamente a obstrução de funções como forma de assédio e abuso de poder.
  • Incluir nos regulamentos e códigos de conduta referências claras a “esvaziamento intencional de funções”, “impedimento injustificado do exercício de competências legais e deontológicas” como práticas proibidas.
  • Ligar estes comportamentos ao dever de respeito pela autonomia técnica e pela deontologia das profissões de saúde.
  • Reforçar canais independentes de denúncia e proteção.
  • Permitir que profissionais de saúde reportem não apenas insultos ou humilhações, mas também padrões de obstrução de funções e de competências.
  • Garantir que estas queixas são analisadas por estruturas com conhecimento das especificidades profissionais (ordens profissionais, comissões de ética para a saúde, provedores internos).
  • Responsabilizar dirigentes também por uso abusivo do poder organizacional.
  • Avaliar chefias não só por indicadores de produção, mas por clima, justiça organizacional, respeito pelas competências profissionais.
  • Prever sanções claras para quem recorra à ameaça, coação ou obstrução de funções como forma de retaliação ou controlo.
  • Articular com ordens profissionais e estruturas sindicais.
  • Reconhecer que impedir o exercício adequado de competências pode ser também violação indireta de deveres deontológicos (por exemplo, impedir o enfermeiro especialista de prestar o melhor cuidado que sabe ser necessário).
  • Criar circuitos de articulação entre denúncias internas, ordens profissionais e sindicatos para proteger quem denuncia e para corrigir rapidamente situações de abuso.

No fim, a questão volta sempre ao mesmo ponto: que tipo de SNS queremos construir? Um serviço público onde o poder se exerce pela ameaça, coação e esvaziamento de competências para manter silêncios e fidelidades, ou um serviço público em que a autoridade existe para potenciar o melhor de cada profissional em benefício dos doentes?

Denunciar e nomear perseguição profissional, assédio moral, ameaça, coação e obstrução de funções é um passo necessário para que o SNS se possa olhar ao espelho. Não é um ataque ao SNS; é um gesto de cuidado radical com a sua dimensão mais valiosa: as pessoas que nele trabalham e as competências que põem, todos os dias, ao serviço de todos nós.

 

 

7 Comments

  1. Maria

    Acontece muito mais do que se imagina. Queremos uma cultura de Qualidade, Chefia participativa e formações. No entanto, este assédio é palpável e pior, conhecido de todos e do topo hierárquico. Quando isto acontece, a “máquina” é demasiado pesada para contrariar e denunciar. Pelo contrário, dá força ao infractor e ao regime quase “Pidesca” (sem conotação política). Obviamente que a qualidade de prestação de serviços de saúde é penalizada. E o profissional que poderia fazer a diferença será violentado se tentar mudar algo.

  2. ADÉLIO TINOCO MENDES

    Bom artigo. Seria no entanto interessante saber, mesmo que aproximadamente, a dimensão do problema e a tradução negativa que terá na vida das instituições. A marca que fica e perdura é efetivamente confrangedora e limitativa ou trata-se de fenómenos isolados ou pouco frequentes?
    Será possível fazer uma avaliação deste fenómeno, com critérios de elevada fidedignidade por exemplo a nível nacional?
    Penso que todos ganharíamos com isso e não conheço nenhum estudo com esta abrangência, que, com o recurso às diferentes plataformas e ferramentas informáticas seria hoje diria que não muito difícil de executar.

  3. José Braz

    Parece uma questao residual,mas é mais frequente do que se pensa;mecanismos de bloqueio quase impedem denunciar e é preciso muita coragem e resistencia mental para as consequencias duma denúncia..
    Enfrentei as consequencias, que apesar de ter ganho a causa ,tive como represália a transferência de Serviço,assim como a jurista de instrução do processo.
    A OE ,as administrações hospitalares fa zem conluio e bloqueiam a verdade…É uma podridão,falta de transparência e honestidade …
    Tive consciencia das possiveis consequências e caso perdesse a causa,estaria internado em Psiquiatri
    Fi-lo pela segurança dos utentes,peka humilhação de colegas e tambem por respeito aos meus princípios educacionais,morais e éticos…

  4. Zélia Barbosa Barbosa

    Boa noite , sou TÁS no SU Aveiro! Neste momento sou cuidadora do meu marido que está num processo de demência Ao fim de 2 anos a pedir horario reduzido ,a administração autorizou. Mas a Enf chefe deu sempre parecer negativo e disse que se fosse aceite teria de sair do SU! Foi aceite e não sai …nas sou um alvo a abater ! Sendo controlada constantemente e perseguida pelas equipas de enfermagem de cada turno !! Tendo ordens superiores de me controlar e fazer com que me mandem trabalhar !! Assim como alguns colegas que me arranjam problemas para eu pedir para sair por não aguentar tanta pressão e perseguição!! Agradeço se me puderem responder! Preciso de ajuda !

  5. Ambientes Laborais Toxicos, Não!

    Excelente artigo. Infelizmente, não é só no SNS que o assédio moral, mobbing e abuso de poder acontece, está cada vez mais disseminado nas organizações públicas e privadas. É incrível que com tanta informação, códigos de ética e conduta, seja um crescente problema social e profissional, porque colocam pessoas narcisistas, inseguras e sem valores à frente de entidades não são corretamente supervisionadas, nem sujeitas a um rigoroso escrutínio em relaçãoa estas práticas. Já para não falar da ACT, que se alimenta e sobrevive dos nossos impostos e pouco ou nada faz na supervisão e penalização destas situações. As baixas médicas psicológicas aumentam, não por não se querer trabalhar, mas porque não se consegue trabalhar nos locais onde impera o assédio moral, mobbing e abuso de poder. O sistema está viciado, quando temos a ACT e a Junta Médica da SS, a trabalhar em sentidos opostos e não de forma colaborativa, não à muito a fazer…pois compete à ACT dar maior relevância ao problema das doenças psicológicas em contexto laboral, motivadas por estas situações, penalizando os infratores de forma rigorosa e isenta, e a Junta Médica iria agradecer, porque o foco do problema/doença estaria resolvido, prevenindo situações futuras de más práticas. Sinceramente, isto é tão básico que acaba por ser revoltante ver tanta inação. O não fazer nada, já é uma escolha, que beneficia e ajuda a manter o ambiente tóxico e de medo, causado normalmente por um grupo específico de indivíduos desprovidos de carácter e valores.

  6. Ambientes Laborais Toxicos

    Excelente artigo. Infelizmente, não é só no SNS que o assédio moral, mobbing e abuso de poder acontece, está cada vez mais disseminado nas organizações públicas e privadas. É incrível que com tanta informação, códigos de ética e conduta, seja um crescente problema social e profissional, porque colocam pessoas narcisistas, inseguras e sem valores à frente de entidades não são corretamente supervisionadas, nem sujeitas a um rigoroso escrutínio em relaçãoa estas práticas. Já para não falar da ACT, que se alimenta e sobrevive dos nossos impostos e pouco ou nada faz na supervisão e penalização destas situações. As baixas médicas psicológicas aumentam, não por não se querer trabalhar, mas porque não se consegue trabalhar nos locais onde impera o assédio moral, mobbing e abuso de poder. O sistema está viciado, quando temos a ACT e a Junta Médica da SS, a trabalhar em sentidos opostos e não de forma colaborativa, não à muito a fazer…pois compete à ACT dar maior relevância ao problema das doenças psicológicas em contexto laboral, motivadas por estas situações, penalizando os infratores de forma rigorosa e isenta, e a Junta Médica iria agradecer, porque o foco do problema/doença estaria resolvido, prevenindo situações futuras de más práticas. Sinceramente, isto é tão básico que acaba por ser revoltante ver tanta inação. O não fazer nada, já é uma escolha, que beneficia e ajuda a manter o ambiente tóxico e de medo, causado normalmente por um grupo específico de indivíduos desprovidos de carácter e valores.

  7. Alice Matos

    Há um banco que faz tudo o que descreve no SNS, os funcionários são obrigados a largar o posto de trabalho para bem da sua saúde mental, o assédio é feito por pessoas simpatizantes do PS.

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