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Hodiernamente, há um fenómeno silencioso a ganhar terreno nas organizações contemporâneas: o rigor tornou-se suspeito! A exigência e a elevação passaram a ser confundidas com teimosia, o escrutínio com desconfiança e deslealdade, e a atenção ao detalhe com um atentado e entrave à tão proclamada “fluidez dos processos”. Quem pensa criticamente, quem questiona, quem monitoriza, quem pede transparência, arrisca-se a ser catalogado como “complicado”, “excessivamente zeloso” ou, no jargão informal, simplesmente “chato e inconveniente”.
Este deslocamento cultural não surge do acaso. O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu a nossa época como “modernidade líquida”, marcada pela volatilidade, pela rapidez e pela aversão a estruturas rígidas. Numa cultura que privilegia a velocidade e a adaptação constante, tudo o que abrande ou pareça dificultar o fluxo, patenteia-se como escuso. O problema é que, quando se trata de áreas como a saúde em geral e na Enfermagem muito em particular, a “liquidez” pode dissolver precisamente aquilo que sustenta a segurança e a elevação: o rigor.
Também Byung-Chul Han tem alertado para a “sociedade do desempenho”, onde o imperativo é produzir mais, mais depressa, com menos “fricção”. A eficiência torna-se um valor absoluto e soberano. A reflexão crítica, a pausa para reavaliar um protocolo, a insistência em cumprir escrupulosamente uma norma… tudo isso pode ser interpretado como resistência à produtividade. Assim, o profissional que levanta a mão para perguntar “temos mesmo a certeza?” transforma-se, paradoxalmente, no obstáculo.
Na Enfermagem, esta mudança é peculiarmente inquietante e sobremaneira alarmante. Durante décadas, o esmero, o zelo e a meticulosidade foram considerados marcas de excelência. Conferir a medicação duas vezes não era excesso; era o espectável. Confirmar uma identificação não era burocracia; era cuidado. Hoje, porém, quando as fasquias do que consideramos “bom desempenho” são recentradas por métricas globais de rapidez e volumetria, o padrão poder-se-á adensar em quantidade e desce seguramente em profundidade.
O psicólogo Barry Schwartz, ao falar do “paradoxo da escolha”, lembra-nos que a abundância e a pressão por decidir rapidamente tendem a reduzir a satisfação e a qualidade das decisões. Quando os contextos académicos e de trabalho são saturados por tarefas, notificações e indicadores de produtividade, a tendência humana é simplificar, atalhar, automatizar. O facilitismo não nasce necessariamente da má-fé; nasce recorrentemente da exaustão e da falta de foco no que realmente releva.
É nesta altura que entra na equação um elemento menos discutido: o cansaço moral. Christina Maslach, conhecida pelos seus estudos sobre burnout, demonstra como a exaustão prolongada corrói o envolvimento e o idealismo profissional. Não é apenas a geração mais jovem que pode ceder à cultura do “deixa andar”. Também muitos profissionais experientes, após anos a combater sistemas ineficientes, acabam por baixar a guarda. Por osmose organizacional, o rigor dilui-se. “Se ninguém liga, porque hei de ser eu a insistir?”.
A investigadora e Enfermeira Patricia Benner acrescenta uma perspetiva particularmente relevante para a prática clínica. Nos seus estudos e obra sobre a o desenvolvimento das competências clínicas em Enfermagem- “From novice to expert: excellence and power in clinical nursing”, demonstra claramente que a excelência profissional exige tempo, reflexão e pensamento crítico aprofundado sobre a própria prática. O saber clínico não é apenas técnico; constrói-se através da capacidade de pensar sobre aquilo que se faz, enquanto se faz, e de aprender continuamente com essa reflexão. O rigor, neste sentido, não é obstáculo à evolução, é precisamente a sua força motriz.
O mais curioso é que, num plano quase humorístico, o rigoroso passa a ser visto como uma espécie de personagem caricatural de um romance de ficção científica ou policial- “O Rigor procura-se; oferece-se resistência ao facilitismo”. É o colega que ainda imprime protocolos para sublinhar incongruências, enquanto os restantes dizem: “Isso agora resolve-se.” É aquele que sugere uma auditoria interna e recebe como resposta um suspiro coletivo. É o profissional que, numa reunião, pergunta pelo indicador de qualidade e provoca um silêncio confrangedor, como se tivesse cometido uma indiscrição social (“Desculpem lá estragar o jeitinho!”).
Imaginemos um cenário absurdo: num serviço hospitalar, alguém propõe eliminar a dupla verificação porque “atrasava o turno”. Outro sugere que as listas de verificação são “excessivamente detalhadas”. E, num momento quase teatral, surge o Enfermeiro diligente a perguntar: “E se algo correr mal?” A resposta implícita parece ser: “Não dramatizes.” O trágico é que, em saúde, o detalhe não é dramatização; é prevenção. Caso para dizer…Aqui jaz o rigor, morreu de pressa!
Há aqui uma inversão de valores. Aquilo que outrora era reconhecido como virtude, a prudência aristotélica, a phronesis, passa a ser rotulado como conservadorismo. Contudo, como nos recorda Hannah Arendt, a banalização de práticas pouco refletidas pode abrir caminho à erosão da responsabilidade individual. Quando todos fazem “como sempre se fez agora”, sem questionar, instala-se uma normalização do desvio.
Importa, por isso, reabilitar o rigor não como obstáculo, mas como motor de melhoria contínua. Monitorizar processos não é travar a evolução; é garantir que ela decididamente não descarrila. Exigir não é complicar; é cuidar. A verdadeira fluidez não é ausência de fricção, mas harmonia entre eficiência e segurança.
Talvez seja tempo de devolver o devido prestígio àquele profissional que “dá trabalho”. Porque, no fim de contas, é muitas vezes esse incómodo prolífico que impede o erro silencioso. E se hoje o rigor parece antiquado, talvez seja porque confundimos flexibilidade com desleixo ou laxismo.
Num mundo que celebra exaustivamente os atalhos, os facilitismos, resistir pode parecer birra. Pensar sobre a forma como pensamos, gastar tempo a questionar pressupostos, não é perda de tempo: é uma condição sine qua non para a excelência. Na Enfermagem, como em tantas outras áreas, o rigor nasce precisamente dessa consciência ativa e pode ser simplesmente a forma mais elevada de responsabilidade e de qualidade.


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