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A análise das autoridades europeias, esta quinta-feira tornada pública, incide sobre a evolução da resistência a antimicrobianos em bactérias frequentemente associadas a infeções de origem alimentar. Os dados apontam para uma “elevada proporção” de estirpes de campylobacter e salmonela, identificadas tanto em seres humanos como em animais, que continuam a manifestar resistência à ciprofloxacina. Este antimicrobiano é considerado relevante para o tratamento de infeções com quadros clínicos graves.
No caso concreto da campylobacter, a resistência atingiu uma disseminação tal no continente europeu que a ciprofloxacina deixou de ser recomendada para o tratamento de infeções em pessoas. A informação divulgada pelo ECDC revela ainda que foram impostas restrições ao uso deste antimicrobiano em animais, procurando preservar a sua eficácia no campo da medicina humana.
A salmonela e a campylobacter contam-se entre os agentes mais comuns de doenças transmitidas por alimentos. As infeções surgem, regra geral, depois do consumo de carne, aves e ovos crus ou insuficientemente cozinhados, bem como de leite não pasteurizado. Os sintomas podem variar entre ligeiras desconfortos gastrointestinais e situações que requerem hospitalização.
Em relação à salmonela, os especialistas notam que, embora a resistência em animais destinados à produção alimentar se tenha mantido consistentemente elevada, o que agora preocupa é o aumento da resistência em infeções humanas nos últimos anos. Esta tendência é vista como alarmante, uma vez que a resistência à ciprofloxacina “limita a eficácia das opções de tratamento disponíveis”, sublinham as autoridades no documento.
Para o conjunto das espécies de salmonela, foram registados valores particularmente elevados de resistência à ampicilina em Itália (41,8%) e em Portugal (45,1%). Já a resistência às sulfonamidas atingiu 44,8% em Itália, enquanto a tetraciclina apresentou resistência de 40,5% na Hungria, 46,2% em Itália e 43,0% em Portugal.
Piotr Kramarz, cientista-chefe do ECDC, citado na informação divulgada, sublinha que a resistência antimicrobiana em bactérias tão comuns transmitidas por alimentos evidencia “as estreitas ligações entre os sistemas humanos, animais e alimentares”. O responsável defendeu a importância de uma abordagem integrada One Health (Uma Só Saúde), argumentando que “proteger a eficácia dos antimicrobianos requer uma ação coordenada através de uma abordagem One Health forte, porque a resistência antimicrobiana afeta-nos a todos”.
Em toda a Europa, uma proporção considerável de salmonela e campylobacter, tanto em humanos como em animais de produção, apresenta igualmente resistência aos antimicrobianos mais utilizados, como a ampicilina, as tetraciclinas e as sulfonamidas.
Um ponto que merece destaca particular por parte do ECDC é a deteção de bactérias E. coli produtoras de carbapenemase em animais de produção e na carne em diversos países. Esta situação “requer especial atenção”, segundo as autoridades. Os carbapenemas são antimicrobianos considerados de último recurso para os seres humanos e não estão autorizados para uso em animais destinados à produção de alimentos. Apesar disso, o centro europeu regista um aumento no número de deteções comunicadas, o que, defendem, necessita de “uma investigação mais aprofundada”.
O relatório lembra que, embora a resistência aos antimicrobianos comuns continue generalizada em bactérias de origem alimentar, há também sinais positivos. Vários países comunicaram progressos na redução dos níveis de resistência, tanto em humanos como em animais de produção. “Vários países relataram uma diminuição da resistência a antimicrobianos específicos ao longo do tempo, demonstrando que esforços direcionados podem fazer a diferença”, lê-se no documento.
No que toca à salmonela, a resistência em humanos à ampicilina e às tetraciclinas diminuiu de forma significativa na última década em 19 e 14 países, respetivamente. Foram também observadas tendências favoráveis nos animais de produção ao nível da União Europeia, com redução da resistência às tetraciclinas nos frangos de carne e à ampicilina e tetraciclinas nos perus.
Relativamente à campylobacter, a resistência à eritromicina – um tratamento de primeira linha para infeções por esta bactéria em seres humanos – diminuiu em vários países na última década, tanto em pessoas como em alguns animais de produção.
O documento acrescenta ainda que a resistência combinada a antimicrobianos de importância crítica, ou seja, a resistência a mais de um destes fármacos em simultâneo, permanece geralmente baixa em salmonela, campylobacter e E. coli.
As autoridades deixam, contudo, um aviso final: as melhorias anteriormente registadas abrandaram em algumas áreas, nomeadamente no que diz respeito à E. coli. Os níveis de resistência desta bactéria a certas substâncias nas aves de capoeira “estabilizaram, em vez de continuarem a diminuir”, o que pode indicar um plateau nos progressos alcançados.
NR/HN/Lusa



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