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A investigação, publicada na revista científica The Royal Society, revisita em baixa o limiar térmico necessário para a propagação do vírus. Ao contrário do que se pensava, a transmissão pode ocorrer com temperaturas do ar a rondar os 13 a 14 graus Celsius, e não apenas a partir dos 16 ou 18 graus. Isto significa, explicam os autores, que a janela de oportunidade para o vetor se disseminar é mais ampla, tanto em termos geográficos como sazonais.
No mapa de risco traçado pelos especialistas, Portugal partilha a faixa de perigo acrescido com Espanha, Itália, Grécia e Malta. A sul da Europa concentra-se, por isso, o gradiente mais preocupante, que se vai esbatendo à medida que se caminha para noroeste. O estudo adianta que, durante julho e agosto, cerca de metade da área geográfica do continente europeu reúne condições propícias à circulação do vírus.
Sandeep Tegar, que liderou a equipa do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, sublinha que a descoberta do novo limiar térmico alarga o período do ano e as regiões onde os surtos podem emergir. “O clima mais quente também acelera a replicação do vírus no corpo do mosquito”, observou, acentuando a pressão adicional que as alterações climáticas exercem sobre a saúde pública. O mosquito-tigre (Aedes albopictus), vetor do Chikungunya, tem vindo a expandir o seu habitat para norte, beneficiando do aquecimento rápido do continente.
O alerta chega depois de, em 2025, França e Itália terem registado números recorde de surtos locais da doença, tradicionalmente associada a regiões tropicais. O mesmo mosquito tem sido apontado como responsável pelo aumento de casos de dengue nestes países.
Em Portugal, a monitorização da espécie é feita pela Rede de Vigilância de Vetores (Revive), coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA). O último relatório, referente a 2024, indicava que o Aedes albopictus, detetado pela primeira vez em 2017 no Norte, alastrou entretanto ao Algarve, Alentejo e Lisboa, tendo sido assinalado no Centro nesse mesmo ano. Para Fernando Almeida, presidente do INSA, a dispersão geográfica do mosquito é já uma realidade. Em declarações à Lusa em novembro passado, garantiu, no entanto, que o país está preparado para emergências, contando com uma rede de 350 colaboradores espalhados pelo território para assegurar a deteção precoce de vetores de doenças como o Zika, a Dengue e o próprio Chikungunya.
O primeiro surto conhecido de Chikungunya remonta a 1952, na Tanzânia. Atualmente, o vírus afeta mais de 110 países. A vantagem de saber agora, com maior precisão, os locais e os meses de possível transmissão, nota Sandeep Tegar, é permitir que as autoridades locais decidam quando e onde atuar para conter a dimensão dos surtos.
NR/HN/Lusa



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